sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Santa Carolina, que também fez parte


Um artigo bem-humorado, que me fez rir, alguns dos anteriores tendo, pelo contrário, provocado emoções de ordem vária, ligados a ternas recordações que não pensava mais registar, mas que Salles da Fonseca ousou trazer à baila, em descritivos de simpatia como ninguém mais se atreveu a demonstrar, desde a mudança aqui perpetrada nos termos sociais e políticos que todos conhecemos. Prova, este artigo bem-humorado, que a saúde de Salles da Fonseca está em bom astral, e o seu espírito crítico responde a condizer.
Santa Carolina! Sem nunca a ter conhecido, está bem ligada à trama suspensa sobre mais uma vida com o seu enredo trivial de traição conjugal, ignorada esta, todavia, por ocupações da luta pela vida e que hoje parece caso insignificante, de tão banalizado, no desastre dos caracteres, do mundo, do clima, da educação, das vidas, a caminho dum futuro que parece cada vez mais sem perspectiva.
Só me lembro de que Santa Carolina era escala frequente de férias do pai dos meus três primeiros filhos, onde arranjara amigos, dizia, mas mais tarde, também os filhos o acompanharam e viveram as delícias de um litoral que oferecia boa areia e água límpida, com passeios de barco, entre as ilhas do arquipélago que a Internet mostra, em imagens várias. Tenho ideia de que se falava de “barracuda”, que por lá se pescava, e a propósito, recordo o casal sul-africano John e Carol, dois dos amigos adquiridos nessas estadas por Santa Carolina, que a pescavam, e dela falavam como de um peixe a dar nas vistas. Era um casal de uma educação extremosa que me tratava com muita simpatia – percebi depois que feita de piedade, pois que eram frequentadores de Santa Carolina, onde eu nunca estive.
Afinal, apesar da graça descritiva de Salles da Fonseca, provocadora de riso, este texto acaba por trazer à memória tortuosidades que passaram, nas manobras múltiplas de desinteressantes intrigas mundanais.

HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO, 09.08.19
Check out parcial do Polana porque deixávamos lá guardada a bagagem de que não precisaríamos no Bazaruto onde passaríamos a semana seguinte. O bastão mágico ficava, eu não tencionava exibir qualquer poder ou exercer qualquer magia.
Bimotor a hélices para cerca de uma dúzia de passageiros mais uma tripulação de piloto (sul africano preto), co-piloto (misto moçambicano), hospedeira (branca loira sul africana) e respectiva adjunta (preta moçambicana). Só me lembro de que era uma empresa associada da LAM em parceria com uma outra transportadora aérea sul africana. A hospedeira instalou-se no lugar mais ao fundo da cabine e copiou-me nas funções que exerci a bordo: pus o cinto de segurança, olhei a paisagem que passava por baixo de nós e vi o piloto, o co-piloto e a adjunta da hospedeira a trabalhar. O nosso voo foi de uma hora de Maputo a Vilanculo (no antigamente, Vilanculos, no plural, mas depois da independência, talvez num ensaio de austeridade, puseram o nome da cidade no singular). Depois de nos deixar, o avião seguiria para a Beira e daí para Joanesburgo e Maputo fechando o circuito. Viagem sem nada a assinalar e o piloto a fazer-se à aterragem como eu gosto, com os motores bem activos e não a pairar como as folhas no Outono.
No aeródromo – pintado de fresco – aguardava-nos o transfer para a povoação próxima, Mucoque (onde nascera uma cunhada minha quando o pai dela administrava esse posto), para aí tomarmos um barco típico da pesca ao espadarte que nos levaria até uma ilha ali bem à nossa frente, a uma trintena de quilómetros.
É em Mucoque que se localiza o Hotel Don’Ana, famoso pelo molho à base de piri-piri que a tal Dom’Ana fazia no antigamente. Foi nesse hotel que fiquei instalado mais de 30 anos antes quando fiz parte duma Junta de Recrutamento Militar em toda a zona a sul do Save. Foi daí que avistei pela primeira vez as então chamadas Ilhas do Paraíso que os independentistas rebaptizaram de Arquipélago do Bazaruto - muito nacionalista, muito cultural mas nada romântico. Temendo essa mesma onda estética, não apurei qual o actual nome da Ilha de Santa Carolina e só espero que não a tenham rebaptizado com tanta fealdade sonora como a ilha para que nos dirigíamos agora, Benguerra.
É na antiga ilha de Santa Carolina que se localiza o hotel do grupo Pestana para que tínhamos inicialmente assestado o azimute mas um ciclone que nos antecedeu, inviabilizou a nossa pretensão. Fomos para a ilha ali ao lado, para um empreendimento hoteleiro sul africano também ele dedicado ao big game fishing denominado Marlin Lodge.
Desembarque por encalhe do barco na praia mesmo em frente da recepção do hotel, salto por cima da borda do barco e «arenagem» (em pé, de preferência) na areia com água por meio da canela. Como se imagina, é conveniente ter-se alguma mobilidade física para se conseguir desembarcar e não ter que regressar ao continente onde, aí sim, há uma escada de pedra a que o barco encosta.
O Marlin Lodge é todo em madeira (construção pré-fabricada?) e desenvolve-se num só piso para que se sobe directamente da areia da praia por escadas largas de 3 ou 4 degraus. Nessa zona de entrada localiza-se a recepção propriamente dita, uma ampla sala de estar, a casa de jantar e a cozinha e respectivos anexos. Aos quartos acede-se por um passadiço em madeira e cordame que se desenvolve ao nível das copas das árvores pelo que nos sentimos primos da macacada. Cada quarto é uma cabana com telhado de colmo, paredes em caniço por onde passa uma mão vertical, uma casa de banho muito melhor do que a que coube em sorte a Robinson Crusoe, uma cama amplíssima com rede mosquiteira. A sala de estar é um varandim com duas cadeiras muito confortáveis, cada uma com sua mesa de apoio. O «jardim» fronteiro é uma praia para que se desce por uma dúzia de degraus rústicos de areia sustida por tábuas, tudo rodeado por vegetação que isola cada cabana das que lhe estejam próximas. A água, a uma vintena de metros na maré cheia, tem manatins e outros animais exóticos mas consta que só bicharada pacífica. Pode-se nadar à vontade sem temer o «dentuças».
Instalados, foi-nos sugerido que ao jantar nos apresentássemos em smart casual dress code. Of course, a Graça e eu não estamos habituados a jantar de fato de banho, nem mesmo quando estamos sozinhos na casa da praia.
E a certa altura começou um batuque como há mais de 30 anos eu não ouvia…
Amanhã há mais, boa noite!
Agosto de 2019
Henrique Salles da Fonseca

COMENTÁRIOS
Henrique Salles da Fonseca, 09.08.2019: Gostava muito de um dia conhecer Moçambique, dizem que é muito bonito. Obrigado por partilhar as suas recordações por essas paragens. Abraço, António Souza Cardozo
Henrique Salles da Fonseca, 09.08.2019: Se alguém me perguntar onde fui nas férias, vou dizer que fui a Moçambique... Obrigada, Henrique.  Helena Salazar Antunes Morais

Anónimo, 09.08.2019:Também eu tomei um bimotor, nos longínquos anos de finais de 1992 ou início de 1993, isto é, em plena estação quente e húmida propícia a tempestades, para ir a Bazaruto. Ao contrário da tua, Henrique, a minha viagem teve algo a assinalar. O piloto atreveu-se a penetrar numa nuvem alta (seria cumulonimbus?) o que fez com que o bimotor parecesse uma casca de noz até sairmos da nuvem. Depois de aterrarmos numa pista que mais parecia uma picada, lá fomos em jeep aberto para as instalações hoteleiras, as quais deixavam muito a desejar, apesar de serem (ou a sua exploração) de um prestigiado grupo português, que estava, então, a fazer a sua entrada em Moçambique. Por lapso, não levei fato de banho e, pela primeira vez e única, até agora, utilizei um emprestado de um conhecido companheiro de viagem, casado com uma economista, também viajante, ainda mais conhecida, fazendo ela ainda hoje manchete em jornais, felizmente pelas melhores razões. No final do dia regressámos no jeep aberto, para tomar o avião, debaixo de uma tempestade que impediu o percurso em picada, pelo que viemos pela areia à beira mar, fugindo do arrebentar das ondas. E como o jeep era aberto, pusemos a roupa em sacos de plásticos e viemos até ao avião em fato de banho. No barracão que estava junto à pista/picada, secamo-nos com toalhas, vestimo-nos e aguardámos uma aberta para o take-off. Chegámos a Maputo sem novas novidades. Não voltei a Bazaruto. Por que razão será? Abraço. Carlos Traguelho
Henrique Salles da Fonseca, 09.08.2019: Que bom revisitar Moçambique. Gostei tanto que quase fiquei!Conheci um português num restaurante que vendia tubarão em Vilanculos, ele convidou-me a ir a Bazaruto e no dia seguinte lá estava uma espe´cie de Dow, um bote com uma vela, 4 horas de agonia com os negros todos a ir ao gargal. Chegámos a Bazaruto uma aldeia indígena, fiquei numa cubata. E dormi com as galinhas. Foi uma experiência fantástica! Manuel Saporiti

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