domingo, 1 de março de 2020

O tal que disse que não se devia pagar a dívida?



Refiro-me a Pedro Nuno dos Santos. De resto, basta ler os comentários da maioria ao texto de JMT. Devem ser adeptos do vencedor Pedro Nuno dos Santos. Adeptos da trafulhice, da mândria, do compadrio, de um ramalhete de atributos nacionais, que contrastam com os de outros povos, ditos civilizados. E transcrevo, para exemplo do que não temos, um pequeno excerto de “Diálogo em Setembro” de Fernando Namora, publicado em 1966, relato marcado, certamente, pelo desejo de mudar algo nos comportamentos dos seus conterrâneos, desde sempre diferenciados daquilo que se apresentava lá fora, neste caso, na Suíça, em Genebra, lugar de um Encontro Internacional sobre o “profundo abalo que a técnica trouxe a todas as expressões da vida”, ponto de partida do seu enredo.
Eis o passo sobre um rumo educativo como não existe por aqui, (omissão que se traduz no protagonismo nacional de figuras como essa de Pedro Nuno dos Santos e da sua alergia ao acerto de contas por cá, poor country de atropelo e compadrio prestigiados):

«Mas apesar da chuva impertinente, e silenciosa como um velho hábito, apesar do frio que enruga o dorso desmaiado do lago, os grupos de jovens escolares, de perna ao léu, capitaneados por um camarada mais graúdo, escutam páginas de história ou de literatura junto dos monumentos, dirigem-se, com a merenda frugal, para o ancoradouro dos barcos, rumo aos bosques da outra margem ou rumo às montanhas, e quer nos albergues dos estudantes, quer em tendas de campistas, aproveitarão estes restos de férias e de luminosidade dissolvida na molinha para reforçarem as reservas de ar puro, enquanto aprendem, no cenário da natureza, lições de biologia, de companheirismo, lições da vida. Vê-los assim é compreender certas vitórias de um povo. Pois não é por acaso que em Genebra ou qualquer outra cidade suíça se respira um clima cívico que explica esta asseada eficácia que apetece importar em doses digeríveis. Tudo vem lá de trás; e tudo recomeça, ano após ano, nestes ranchos de variadíssimas idades que, recebendo a iniciativa no momento próprio e da melhor mão, se integram e participam dos desígnios de uma comunidade.»

OPINIÃO
António Costa morre de saudades de Passos Coelho
Sem o papão Passos, o que temos é o que se está a ver: o eclipse de qualquer compromisso e o lento desmoronar de um Governo que acaba de tomar posse.
JOÃO MIGUEL TAVARES
PÚBLICO, 29 de Fevereiro de 2020
Sabem quem é que em Portugal tem mais saudades de Pedro Passos Coelho? Não, não é a direita. É mesmo António Costa. Em 2015, ninguém dava um caracol pela solução de governo que o PS desencantou. Quase tudo o que era analista político (eu incluído) considerava impensável a autoproclamada “geringonça” aguentar-se quatro anos – algures pelo caminho, ela teria de se escaqueirar. A verdade é que não se escaqueirou. Mérito de António Costa, sem dúvida. Mérito da capacidade negocial de Pedro Nuno Santos no Parlamento. Mérito das habilidades contabilísticas de Mário Centeno. Mérito da surpreendente disponibilidade do PCP e do Bloco de Esquerda para a prática de deep throat com batráquios. Parabéns a todos eles.
Mas eis que chegamos a 2020. O PS tem uma maioria bem mais confortável no Parlamento. António Costa continua primeiro-ministro. Pedro Nuno Santos continua no Governo. Mário Centeno, por enquanto, também. O PCP e o Bloco de Esquerda continuam a ser liderados pelas mesmas pessoas. E, subitamente, tudo o que era sólido começou a dissolver-se no ar. Como é isto possível? Como se explica a deterioração aceleradíssima da capacidade negocial do Governo? Quem é que roubou o pragmatismo ao primeiro-ministro? Por onde é que fugiram os famosos mestres do compromisso? Em que país é que se esconderam os mundialmente aclamados génios do diálogo?
Por favor, encontrem-nos depressa, porque o país está a precisar muito deles. No Montijo, o governo anuncia um aeroporto para depois esbarrar numa lei, aprovada em tempos pelo próprio PS, que obriga a um consenso municipal que não existe. A solução é negociar? Não, a solução é alterar a lei. A oposição está contra a alteração da lei? A culpa é do PSD. No Parlamento, o governo anuncia Vitalino Canas e Clemente Lima para juízes do Tribunal Constitucional. Ambos necessitam dos votos de dois terços da Assembleia. A solução é negociar? Não, a solução é forçar a votação. Os nomes não passam no Parlamento, e nem sequer os deputados do PS votam todos em Vitalino Canas? A culpa é da oposição. Diz Ana Catarina Mendes, com a sua habitual delicadeza: “É absolutamente espantoso que a Assembleia da República e os deputados se permitam bloquear o normal funcionamento das instituições democráticas.” Definição de “bloqueio das instituições democráticas” no Dicionário Português-Socialistês: não fazer a vontade ao PS.
Reparem no padrão: há uma votação no Parlamento; não passam os nomes que o PS quer; a oposição está a afundar as instituições democráticas. Há um aeroporto no Montijo; não é aprovado pelas autarquias que o PS quer; as autarquias (e o PSD) estão a afundar o futuro do país. Convém notar que este género de reacção não é propriamente espantoso – o PS sempre se achou o dono do regime, e fazer birras quando é contrariado está na sua natureza. Espantoso foi essa não ter sido a sua atitude nos anos 2015-2019, onde deu mostras de uma capacidade de sedução como nunca se tinha visto na Terceira República.
E é aqui que regressamos à primeira frase do meu texto. Se os protagonistas são os mesmos, o que é que havia em 2015 que não há em 2020? A resposta é só uma: Pedro Passos Coelho. O seu espectro e a sombra do seu governo foi a cola que em 2015 uniu a geringonça e o óleo que possibilitou o seu funcionamento até final de 2019. Sem o papão Passos, o que temos é o que se está a ver: o eclipse de qualquer compromisso e o lento desmoronar de um Governo que acaba de tomar posse.
Jornalista

COMENTÁRIOS
vik INICIANTE: o ressabiado do passos não chega nem aos calcanhares de António Costa ! 29.02.2020
Leao Leao.887720 INICIANTE: há por aqui muitos contadores de histórias cor de rosa 29.02.2020
Rui Ribeiro EXPERIENTE: As afirmações de Ana Catarina Mendes mostram o pior de um regime partidário, em que as caninas fidelidades partidárias são o mais importante e o partido se confunde com o país. São tiques de autoritarismo de quem não tem (e bem) os votos para ser autoritário. Maiorias absolutas nunca mais! 29.02.2020
Conde do Cruzeiro MODERADOR: Excelente crónica, do comentador favorito do regime Passista, que mais uma vez arranjou maneira de falar no finado. Não se esqueçam, de acender uma velinha por alma do Passismo.
29.02.2020
António Cunha MODERADOR: De facto Passos (& Cia) é a cola da Geringonça (um termo ainda hoje tão carinhoso, devo dizer). O agoniante desmoronamento (2015-2017) da PàF foi ingloriamente lindo de se ver. 29.02.2020
PEDRO QUEIROS INICIANTE: Excelente. Parabéns E obrigado : 29.02.2020
Carlos Cunha INICIANTE: Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve. Como os pais nunca mais aparecessem a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse. O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, considerava-a como sua mãe. Foram vivendo felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras. Os campos em volta passaram a ser um imenso deserto. O coelhinho, teve de deslocar-se muitos quilómetros a fim de procurar comida. Mas já nada havia que se pudesse mastigar. Passaram muitos dias e o coelhinho estava cada vez mais magro e faminto. A mãe couve disse-lhe: “Meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos. Compreendes o que quero dizer? ”O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma, comeu a mãe. (original Pedro Oom) 29.02.2020
mário borges EXPERIENTE: Não ser uma pessoa com ideias políticas muito vasta e com uma cada vez mais vasta onda populista com muitíssimo ultraliberalismo pelo meio dá nisto. Uma crónica vazia mas que encerra em si um enorme desejo. Que o talibã do ultraliberalismo Passos regresse em força para voltarem as loucuras austéricas. O Costa está bem de vida. O Rio não pode crescer mais do que o que é, logo o PSD está controlado e para sobreviver não pode hostilizar o PS. Temos o velho bloco central em actividade plena e o Costa deixou de piscar o olho à esquerda e virar para a direita. Agora vai pelo centro e sabe que pela direita é mais seguro. E é pelo que fez justamente a Seguro que se conhece quem é o Costa. Oportunista e com um jogo de cintura invejável (ou sem espinha dorsal conforme o gosto). JMT loves Passos! 29.02.2020
Vitor Estevao INICIANTE Passos pode ter sido tudo. Talibã do ultra liberalismo mostra uma ignorância confrangedora! VC sabe ao menos o que é o liberalismo? 29.02.2020
JDF EXPERIENTE: Like! 29.02.2020
capeixoto INICIANTE: Um instalado à custa de alguém. Só pode 29.02.2020
António Cunha MODERADOR: Excelente, Mário Borges. 29.02.2020
RUI ESTEVES INICIANTE: E entretanto no PSD e no CDS, a falta que lhes tem feito um novo Sócrates! Falta-lhes alguém a quem pudessem imputar o desequilíbrio nas contas públicas, o despesismo, a vida à larga sem rendimentos conhecidos. Com o governo Costa, os portugueses viram regressar os subsídios de férias e de Natal, viram afastados os cortes nas pensões, viram o IRS descer, as contas do Estado a entrar nos eixos, e não vêem a continuação do escandaloso leilão do património público. E enquanto se lembrarem do que penaram com o sr. Passos Coelho, o PSD e o CDS não têm grandes hipóteses de regressar. Se há alguém com saudades do sr. Passos, é aquela chusma de abutres que enriqueceram à custa do esbulho do património público e também da venda ao desbarato do património dos Bancos caídos em desgraça. 29.02.2020
JDF EXPERIENTE: Oh rui, isso são constatações reais, mas e o contexto? A governação da troika foi muito pesada para o português, foi sim. E não esquecendo isto, e o esforço feito foi do cidadão, o rui esqueceu-se de mencionar que na governação costa tivemos das melhores taxas de juro de financiamento externo de décadas...tudo costa não foi? Errado...tudo o português, forçado por uma governação austera, da qual costa não teve nenhum contributo (nem positivo nem negativo), mas que se vem gabar quando consegue, como se fosse tudo ele! É fácil dizer que somos grandes agricultores quando chegamos à horta que não plantámos e tirámos de lá uns tomates grandes e viçosos. Até eu sou o maior! 29.02.2020
António Maria Coelho de Carvalho INICIANTE : E viram também todos os países, da Europa oriental e do nosso campeonato, ultrapassarem-nos em termos de PIB/habitante... 29.02.2020
António Cunha MODERADOR: Passos é um técnico que faz o que lhe dizem. Não sabe, não conhece e tem raiva a quem sabe e conhece. Um zero à esquerda (Oops) com veia para a raiva e a espuma ao canto da boca. 29.02.2020
Mario Coimbra EXPERIENTE: Muito bom. A geringonça nunca foi a favor de algo foi sempre contra algo. Serviu enquanto o perigo estava lá. 29.02.2020
ana cristina MODERADOR: o carissimo JMT bem gabava o jogo de cintura e a habilidade política do Costa…. Mas afinal parece que, tudo somado, não basta e não leva a lado nenhum 29.02.2020
GMA INICIANTE: O amor profundo do escriba JMT pelo Sr. Passos (quem terá imitado quem na pose de rebeldia de barba-e-careca?!) leva-o a imaginar um mundo povoado de Tavares! Por mim, anseio que o grande estadista Sr. Coelho volte ao poder; por certo arranjará um lugarzito de "comendador" para o Sr. Tavares, incompatível com o débito diário de banalidades aqui no Público.29.02.2020
ana cristina MODERADOR: tem tudo a ver com o que está escrito na crónica….29.02.2020
joaquim machado INICIANTE: Sobre o Montijo, lamento q não se coloque em primeiro lugar q a solução de um aeroporto complementar (APEADEIRO) está estruturalmente errada. 29.02.2020
Novo Humbo MODERADOR: Isso. Geometricamente descrito, quase científico. Siga para comentários irados pela clareza da coisa. 29.02.2020
rogerio borges, INICIANTE: Só em referência ao título da crónica, não coloque na cabeça dos outros aquilo que vai muito na sua. 29.02.2020  
Destruidor de Fachos INICIANTE: Má escolha de palavras para o título: 29.02.2020
bento guerra EXPERIENTE: Costa confronta-se com rebanhos. Valha-nos o Ventura 29.02.2020
ALRB EXPERIENTE: Costa explorou o ódio provocado pela austeridade do PSD/CDS, austeridade essa inevitável após a bancarrota do PS. E conseguiu manter essa austeridade ao mesmo tempo que conseguia o apoio dos partidos à esquerda (e que abominavam a austeridade do PSD/CDS). Centeno, o Ronaldo das finanças, mais não foi do que o Vitor Gaspar do Costa garantindo a continuidade da recuperação económica enquanto Costa ludibriava os partidos à esquerda e encantava os eleitores com as vitórias do europeu de futebol, da eurovisão e a recuperação económica iniciada no governo PSD/CDS. Como tudo o que é baseado em odiar, ludibriar e enganar a seu tempo se desmorona, temos o que descreve JMT. Mas não há que sobrestimar a capacidade cognitiva do eleitor nem subestimar a manha do Costa em explorar a referida capacidade. 29.02.2020
Colete Amarelo, EXPERIENTE: Não, não foi Pedro Passos Coelho. Foi, sim, o horror das políticas do governo Coelho-Portas. 29.02.2020
ALRB EXPERIENTE": É absolutamente espantoso que a Assembleia da República e os deputados se permitam bloquear o normal funcionamento das instituições democráticas.” disse Catarina Mendes. Acho que ela se estava a referir a quando a assembleia rejeitou o programa de governo do partido mais votado para abrir caminho ao governo do segundo partido mais votado. 29.02.2020

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