terça-feira, 29 de setembro de 2020

Sabatina aterradora


Da Economia, tal qual está hoje, por cá. Superiormente explicada por Helena Garrido, com o aval dos comentadores. O governo de Passos Coelho tinha previsto, diabolizando o governo que, fraudulentamente, lhe seguiu. Parece que acertou, informam os vários escritos que seguem. O diabo chegou mesmo, e não foi só a Covid-19 a responsável, segundo o que segue:

 

O risco de uma economia zombie/premium

Boa parte das economias da UE ainda estavam ligadas à máquina do BCE. Com a nova crise, nova máquina de respiração artificial vem dos governos. Não será fácil colocar as economias a respirarem por si.

HELENA GARRIDO

OBSERVADOR,  28 set 2020

Portugal, embora não seja o único, já tem uma tendência estrutural de manter empresas zombies. Vários factores contribuem para isso, nomeadamente um regime de insolvência lento e complicado, que acaba por proteger a empresa devedora, e um sistema bancário que usou e abusou de esquemas de prolongamento de empréstimos a empresas manifestamente inviáveis, para evitar contabilizar perdas nas suas contas. Está por estudar a dimensão total da “economia zombie” em Portugal, embora um trabalho de economistas da OCDE tenha uma estimativa de 12,5% para empresas do sector da construção e serviços, numa investigação que vai até 2015.

O crescimento de empresas “mortas-vivas” voltou à actualidade na sequência dos apoios que praticamente todos os governos estão a prolongar às suas empresas.

Na Alemanha, além dos apoios que também temos em Portugal e que são mais generosos, o Governo congelou a legislação sobre insolvências que deveria regressar este mês, mas resolveu prolongar essa interrupção. Uma iniciativa que não foi consensual dentro do governo, por se recear estar a alimentar empresas que nunca vão recuperar, impedindo assim que a economia se reestruture, gerando novos negócios mais produtivos – ver aqui no FT, para assinantes.

Uma empresa zombie, na classificação dos economistas, é aquela que não gera lucros para pagar o seu serviço de dívida durante três anos consecutivos. Os estudos sobre o tema têm revelado um aumento significativo dessas empresas “mortas-vivas”. Um trabalho do Banco Internacional de Pagamentos (BIS) mostra que o peso das empresas zombie aumentou de 4% em finais da década de 80 para 15% em 2017 (o trabalho usa dados de empresas não financeiras cotadas em 14 economias).  Concluem ainda, em linha com outros trabalhos, que as empresas zombie são menos produtivas, mais endividadas e investem menos em capital físico e intangível.

Em termos gerais, uma economia de morto-vivos tende a ser menos produtiva e inovadora, condicionando obviamente o potencial de crescimento da economia. E, no quadro actual, corremos um sério risco de aumentar ainda mais o número de empresas zombies.

A crise que a pandemia está a provocar apanhou as economias europeias ainda ligadas à máquina, neste caso, o BCE. O elevado endividamento de países como a Itália, Espanha, Grécia e Portugal a par, ou na sequência disso, de taxas de crescimento económico relativamente baixas, manteve os juros praticamente em zero ou negativos.

A pandemia obriga a ligar a economia à outra máquina disponível, o Estado. Um pouco por toda a Europa e tal como em Portugal, criaram-se mecanismos especiais de apoio ao lay off, adiaram-se pagamentos de impostos e de empréstimos e concedeu-se novo crédito bonificado. Algumas dessas medidas estão a ser prorrogadas também em Portugal, como foi o caso da decisão do Governo de permitir que se interrompa o pagamento de empréstimos e juros até Setembro do próximo ano.

A gravidade da crise económica gerada pela pandemia é tal que o Estado tem obviamente que suportar o funcionamento de algumas empresas. O cenário alternativo seria uma destruição brutal da capacidade produtiva, num processo quase equivalente ao de uma guerra, o que levaria a uma recuperação muitíssimo mais lenta do que a já muito lenta retoma que se perspectiva, com efeitos sociais inimagináveis.

O Governo tem tido, em alguns aspectos, cuidado para não manter indefinidamente as empresas ligadas à máquina, tentando criar incentivos para o regresso à actividade. As medidas associadas ao lay off são um exemplo. Designado como “apoio à retoma progressiva”, já é um apoio à redução do horário de trabalho. Os outros apoios deveriam seguir a mesma lógica, de suporte à recuperação e não à sobrevivência. É o caso das moratórias de crédito e mesmo dos novos empréstimos. Devem e têm de ser concedidos numa lógica de recuperação e reduzidos ao mínimo, olhando igualmente para a viabilidade da empresa.

Corre-se o risco de matar as empresas não pela doença provocada pela pandemia, mas pela cura excessivamente baseada no endividamento. Além disso, não se consegue perceber se os apoios estão mesmo a chegar às empresas. Há demasiadas queixas de atrasos nos pagamentos ou de uma burocracia excessiva que, a corresponderem à realidade, acabarão por destruir as boas e as más empresas. E aí o risco de zombificação diminui, mas destroem-se igualmente empresas viáveis. (No hipotético caso de se estar a apoiar quem tem mais contactos, o que não é uma hipótese descabida conhecendo nós o país, as empresas que sobreviverem não serão as melhores mas as que têm a melhor rede de influência.)

Há vários riscos nestas medidas de apoio. Um é manter artificialmente vivas empresas inviáveis, com os consequentes efeitos na redução da produtividade. Um segundo risco é aumentar ainda mais o número de empresas inviáveis por se ter baseado os apoios excessivamente no aumento das suas dívidas, o que provocará igualmente uma retoma mais lenta. Finalmente, pode estar a agravar-se ainda mais o risco para a banca que mais cedo ou mais tarde terá de registar perdas no seu balançohá empresas que obviamente não vão sobreviver.

A The Economist, por exemplo, defende que o apoio às empresas do sector do turismo, que nunca vão recuperar a facturação que perderam, deveria assumir a forma de subsídios se os governos acreditam mesmo que o turismo vai recuperar. Em Portugal seria impensável, já que o Estado não tem capacidade financeira para isso. Uma outra medida, já mais controversa, diz respeito aos apoios à actividade, que a revista considera que deveriam ir para as pessoas e não para os empregos. E é controverso já que o apoio ao emprego mantém a pessoa em actividade, reduzindo os efeitos sociais negativos do desemprego e minimizando também as perdas de qualificações. Ainda que, e em contrapartida, impeça as pessoas de procurarem outras alternativas que, de qualquer forma, neste momento não existem.

Neste momento temos as economias em respiração artificial e com transfusões de sangue. A crise financeira ligou as economias ao BCE, a pandemia ao Estado. Como vimos, ainda antes da pandemia, estava a ser muito difícil desligar a máquina do BCE, sem afundar a economia. Imagine-se como vai ser difícil agora retirar da economia não só o BCE como o Estado. As medidas têm de ser desenhadas para uma aterragem suave, sem impedir que as empresas inviáveis morram para dar lugar a outras. Um desafio enorme para um país como Portugal tão dependente do turismo e a querer virar-se para a indústria. Corremos um sério risco de ter um crescimento ainda mais medíocre se não existir a coragem de ir tirando os apoios e substituí-los por medidas de recuperação.

EMPRESAS   ECONOMIA

 

COMENTÁRIOS:

Gens Ramos: Tal como uma grande parte das empresas, assim também o Estado está ligado à máquina da UE/BCE. O país dificilmente respira, tal é o peso da sua dívida. Esta é a realidade. Como se sai disto? Não sou economista para me pronunciar de forma apoiada no conhecimento, contudo, consigo dizer que o caminho que estamos a percorrer não me parece bem. Temos uma Educação deficiente, prestes a integrar uma espécie de “ensino especial”; assim, com a “espinha dorsal” a passar por um período incerto e s/ rumo definido, será muito difícil prever uma melhoria a curto prazo e, convenhamos, para um espaço/tempo mais longo com muitas dúvidas/incertezas. Desculpem, mas não conseguimos garantir nada para a(s) próxima(s) geração(ões).

Manuel Oliveira: Com socialismo é sempre a cavar... A Hortense e demais já se demitiram? Nem após mortes de Pedrógão alguém se demitiu! A maminha é boa demais! Maria Augusta > Manuel Oliveira: 100% Razão! Uma verdadeira corja.   Manuel Magalhães: O pior é que temos um governo ainda mais zombie, isto é, completamente incompetente, vejamos só, um governo formado por 70 pessoas, penso que não há memória de tal coisa, e ainda por cima vão buscar mais uma pessoa de fora para os ajudar (ensinar) a pensar, isto se não fosse trágico era de gargalhada...     Luís Martins: Em Portugal não é só a economia que é zombie. O país como um todo, é zombie! O aumento da economia zombie é directamente proporcional ao aumento da influência neo-marxista no mundo ocidental. A ironia da história é a de que os países que se libertaram do marxismo, são hoje economias vibrantes, e os países "capitalistas" com democracias liberais do ocidente, estão profundamente caracterizadas pelo marxismo, primeiro nos regimes políticos, depois nas universidades, na cultura e média, e finalmente na sociedade.      Maria Maravilhas > Luís Martins: Toda a razão!     Ataíde Fontes: A maioria dos Jornais e TV's em Portugal também são zombies, por isso é que se disponibilizaram a serem "comprados" pelo desgoverno do Costa.    bento guerra: Governos zombies, alimentados pela impressora da barbie do BCE. Um teatro de sombras ,com guião chinês      Antes pelo contrário: O País é que é "zombie". A Dívida Pública já ultrapassou os 260 mil milhões e não pára de crescer, o endividamento geral do País ronda os 744 mil milhões, dos quais metade, pelo menos, é financiada pela UE e pelos bancos nacionais e estrangeiros - sendo que os nacionais, vivem dos ganhos facilitados pelas injecções do BCE, que também financia o Governo - as dívidas das PME são o dobro das das grandes empresas, a Balança Comercial continua com um défice crónico, apenas contrabalançado de forma pontual pela exportação de serviços, desde 2013, mas com valores baixíssimos e instáveis, continuamos a ter (e em cada vez maior número) largos sectores e empresas dependentes do Estado, e um número cada vez maior de pessoas que em nada contribuem para a sociedade, isentas de taxas e impostos, e com direito a cada vez maiores gratuitidades. Num País com 10,5 milhões de habitantes... onde só 2,8 milhões pagam IRS?... (e onde este apenas rende ao Estado 20 mil milhões, um pouco mais que os 18 mil milhões do IVA, quando só as despesas correntes são de 54 mil milhões (fora as despesas extraordinárias e o serviço da dívida), e as despesas totais do Orçamento 2020 são de 174 mil milhões??? Qualquer dia não somos "zombie", mas simplesmente cadáver. João Pimentel Ferreira > Antes pelo contrário: O IRS não rende 20 mil milhões, mas 11. De resto, bom texto.   psssttt psssttt > Antes pelo contrário: já somos cadáver há muito. apenas ainda não foi decretado o óbito. está a ver aquelas famílias que conservavam o cadáver do familiar defunto para continuar a receber a reforma? portugal está assim. Só não vê quem não quer. E a agravar tudo ainda temos aí a transição robótica. vai-se a um ikea, decathlon, hipermercado, e já não se vêem operadores de caixa.....vai ser bonito de se ver...cada palmo de terra irá ser disputado para conseguir cultivar umas couves galegas.

Antes pelo contrário > João Pimentel Ferreira: Segundo a PORDATA, a receita do IRS foram exactamente 13.171,2 milhões em 2019, e o OE2020 prevê este ano 20.529 milhões de receitas dos impostos directos, dos quais 13.585 de IRS. De facto não me lembrei que os 20 mil e tal milhões eram as receitas totais dos impostos directos, mas isso só vem dar ainda mais peso ao que eu disse.         João Pimentel Ferreira: Congratulo vivamente o governo por atribuir mais de 1000 milhões dos fundos europeus, para providenciar habitação condigna a famílias carenciadas, tal é um cancro social que importa sanear. Convém todavia que à entrada que cada um desses novos bairros esteja uma bandeira da UE, para que depois os moradores não alimentem eleitoralmente partidos de esquerda eurofóbicos. De resto, o plano é mais do mesmo, mais milhões para alimentar a máquina estado, desta feita dos contribuintes europeus. Não falta muito e seremos ultrapassados pela Bulgária, o último da lista.

Adelino Lopes: Vamos colocar o tema “zombie” em termos populares. Para os economistas, uma empresa torna-se “zombie” quando as receitas não são suficientes para pagar as despesas, i.e. não existem lucros. Pergunto eu: quando a nossa geringonça declara o “ódio final” aos lucros, as empresas podem ter lucros? Só mesmo quem não conseguir ter prejuízos. Vejam a hipocrisia: ter lucros de 20% é pornográfico. Mas ter taxas de impostos (IRS, IRC e IVA – qualquer um) superiores a 20% é de louvar. Mais: para os prejuízos das empresas muito contribuem as políticas dos estados não é? Por exemplo: existe alguma razão para que países não democráticos estejam na mesma organização mundial de comércio dos países democráticos? Por acaso até existe; os interesses dos grandes produtores da globalização. E qual é o interesse das pessoas que vivem em países democratas? Pois, os Trumps desta vida são muito maus, mas (não é a+a; é mesmo existe) falta de melhor, (e portanto) temos de votar neles.

 

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