quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

HISTÓRIA UNIVERSAL EM ANOS DE TRAGÉDIA (III PARTE)


Pesquisa e organização de JOSÉ CARLOS FERNANDES, seguido, nesta III Parte, dos comentários de prazer e gratidão gerais, por um trabalho de grande interesse, tanto mais que a história que nos foi contada, quando estudantes, pouco mais abrangia que o mundo ocidental – e meridional, no que nos competia. JOSÉ CARLOS FERNANDES lança-se, corajosamente, em cavalgada ilustrada, pelo universo planetário, em fraternal e arguta leitura, até chegar, com optimismo, ao nosso tempo de covid, que uma vacina rapidamente obtida, graças ao progresso científico, talvez debele, mas outros flagelos virão, da nossa fatalidade?

Da queda do Império Romano à Covid-19: quais foram os piores anos da História? /premium

JOSÉ CARLOS FERNANDES     OBSERVADOR, 01 jan 2021

1914: I Guerra Mundial

A Europa, que, se exceptuarmos a Guerra Franco-Prussiana de 1870, não conhecera conflitos internos de grande escala desde 1820, tinha vindo a acumular tensões que se libertaram subitamente no Verão de 1914, empurradas por uma desvairada corrida aos armamentos e por um clima de nacionalismo exacerbado, atiçado pela imprensa tablóide dos diversos países.

A guerra durou quatro anos e três meses, o que não é muito longo pelos padrões das guerras de antanho, mas envolveu massas de soldados nunca vistas, foi combatida com intensidade inaudita (graças às inovações tecnológicas introduzidas na viragem dos séculos XIX/XX) e foi a primeira a ser verdadeiramente mundial, envolvendo beligerantes de todos os continentes e disputando-se nos mais diversos teatros, do Mar do Norte a Moçambique, dos desertos do Médio Oriente aos Alpes, no solo, no mar e, pela primeira vez, no ar.

Para se ter uma ideia da ferocidade (e da obstinação irracional) com que a I Guerra Mundial foi disputada, a aldeola belga de Passchendaele (também grafada Passendale) serve de exemplo: era um povoado rural insignificante, não era um importante nó de comunicações, não albergava nenhuma indústria vital, não tinha significado simbólico para nenhum dos beligerantes. Todavia, entre 31 de Julho e 10 de Novembro de 1917, 50 divisões aliadas (britânicas, canadianas e francesas) e 77 a 83 divisões alemãs disputaram a sua posse com tal empenho que sofreram centenas de milhares de baixas – as estimativas são muito variáveis, mas 250.000 para cada lado é um valor plausível e corresponde aproximadamente a um morto por polegada (2.54 cm) de terreno. Não foi o término do banho de sangue em Passchendaele, pois os alemães, que tinham sido forçados a retirar, reocupariam a aldeia na Batalha de La Lys, em Abril de 1918, novamente com pesadas baixas para ambos os lados. Em O horror da guerra: 1914-1918 (The pity of war: 1914-1918), Niall Ferguson apurou que “enquanto às potências da Entente [França, Grã-Bretanha, Rússia, etc.] matar um soldado a combater pelas Potências Centrais [Alemanha, Áustria-Hungria, Turquia, etc.] custou 36.485 dólares, a estas custou apenas 11.344,77 dólares matar um soldado a combater pela Entente”. Ferguson fez também os cálculos inversos, isto é, o prejuízo sofrido por cada país com a morte de um soldado seu: 1444 dólares por alemão, 1354 dólares por britânico ou americano e 700 dólares por russo, pelo que chegou à trágica conclusão de que “não havia soldado que valesse tanto quanto custava matá-lo” (ver A Grande Guerra foi, afinal, um Grande Piquenique?).

A contabilização das vítimas destes quatro anos e três meses aponta para cerca de 10 milhões de soldados mortos, 20 milhões de soldados feridos e cerca de 8 milhões de mortos civis.

1918: Gripe pneumónica

O ano de 1918 pode ser visto como ambivalente do ponto de vista da dicotomia mirabilis/horribilis: por um lado foi o ano em que terminou a carnificina da I Guerra Mundial, mas por outro foi o ano em que se declarou a pandemia de gripe pneumónica.

Ponderando o armistício de 1918 com a vantagem da visão retrospectiva, sabemos que a paz alcançada foi insatisfatória: algumas tensões geopolíticas ficaram por resolver e foram criadas novas razões de agravo e algumas condições impostas pelos vencedores criaram terreno propício à germinação de rancores pela parte dos derrotados – e foi assim que, 20 anos após o término da “guerra para acabar com todas as guerras”, a Europa se viu outra vez a ferro e fogo. Por outro lado, é preciso considerar que a gripe pneumónica faria mais vítimas em cerca de dois anos – Fevereiro de 1918 a Abril de 1920 – do que a guerra em cerca de quatro anos: as estimativas oscilam entre 17 e 100 milhões de mortos, com a maioria das estimativas a cair entre os 20 e os 40 milhões.

A gripe pneumónica tirou partido de o mundo do início do século XX estar servido por uma rede de transportes bem mais eficaz e rápida do que as dos séculos precedentes e de a guerra mundial em curso obrigar à constante movimentação de centenas de milhares de soldados a longas distâncias e ao seu aquartelamento em condições de máxima proximidade e mínimas condições de higiene – condições ideais para a propagação de uma nova doença infecto. Vale a pena lembrar que 1918 foi também o ano em que ganhou intensidade e abrangência geográfica a Guerra Civil Russa, que se iniciara com a Revolução Bolchevique de Outubro de 1917 e que opôs o Exército Vermelho a uma confederação desconexa de facções com diversos credos políticos e motivações, que também se guerreavam entre si. Para aumentar a confusão, o conflito envolveu também regiões russas com aspirações independentistas, senhores da guerra sem outro objectivo para lá da glória e do enriquecimento pessoal e uma constelação de uma trintena de potências estrangeiras (que tendiam a apoiar quem quer que lutasse contra os bolcheviques). Este emaranhado de conflitos arrastou-se até 1923 e destruiu a estrutura produtiva e as infra-estruturas do país, contribuindo decisivamente para agravar os efeitos da seca de 1921, que levou a uma fome generalizada em 1921-22, que terá causado cinco milhões de mortos. Somando a estes os 4 milhões de mortos da guerra propriamente dita,

1933: O NSDAP chega ao poder

Em 1933 não ocorreu nenhuma catástrofe tonitruante: não se registou uma erupção vulcânica maciça ou um sismo de grande intensidade e os conflitos entre nações limitaram-se a escaramuças entre Colômbia e Peru, que disputavam uma remota parcela de impenetrável floresta amazónica, e entre Bolívia e Paraguai, que disputavam uma região semi-árida e despovoada conhecida como Gran Chaco. A economia e a sociedade estavam a braços com a Grande Depressão, mas nos EUA, o presidente Franklin Roosevelt, que tomara posse a 4 de Março de 1933, implementara um vasto e vigoroso conjunto de medidas de revitalização da economia e de apoio aos mais desfavorecidos, que conseguiu pôr a economia americana novamente no caminho ascensional.

O evento que leva a classificar 1933 como annus horribilis parece, visto de longe, apenas um episódio corriqueiro de jogo político num regime parlamentar em funcionamento regular: um político conservador desejava, a qualquer custo, ser chefe de Governo, mas o Presidente da República, também ele conservador, rejeitou a sua pretensão, alegando, com razão, que o dito político não dispunha do apoio do número necessário de deputados no parlamento. O político conservador propôs então ao Presidente que desse posse a um governo de coligação formado por um partido conservador e por um partido populista de extrema-direita. Nesta proposta de governo, a grande maioria das pastas e o cargo de vice-chanceler cabiam aos conservadores, ficando os populistas com apenas duas pastas, mas com o cargo de chanceler. A ideia desagradou ao presidente, que não tinha confiança no líder populista de extrema-direita – uma criatura estridente, quezilenta, inflamada por convicções messiânicas e que se tornara conhecido pelos seus discursos de ódio contra minorias étnicas, alicerçados em teorias conspirativas – e até jurara que, enquanto fosse presidente, o histriónico político nunca seria chanceler. Porém, o político conservador argumentou que o seu parceiro de governo era, sob a sua postura agressiva e bombástica, um pobre tolo, e que seria capaz de manipulá-lo e de domesticar o seu radicalismo, pelo que o presidente acabou por aceder, relutantemente, a que o governo de coligação tomasse posse, o que ocorreu a 30 de Janeiro.

Um detalhe, que se revelaria muito relevante, na constituição do governo de coligação entre o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP, na sigla alemã) e os conservadores do Partido Popular Nacional Alemão (DNVP, na sigla alemã) é que o NSDAP fizera questão de ficar com as duas pastas relativas à Administração Interna. O cargo de Ministro do Interior da Prússia, confiado a Göring, entregava a este o controlo das principais forças policiais do país e, embora, teoricamente, o Ministro do Interior da Prússia estivesse subordinado ao Reichskomissar para a Prússia, cargo que Franz von Papen acumulava com o de vice-chanceler, na prática Göring agiu sem prestar contas a este. Não satisfeito com o controlo das forças policiais regulares, Göring criou a categoria de “polícia auxiliar” (Hilfspolizei), que foi integralmente preenchida com 50.000 “camisas castanhas” (pertencentes às SA, a milícia nazi). Quando, a 27 de Fevereiro, um incêndio consumiu o edifício do Reichstag, Hitler atribuiu o sinistro a uma conspiração comunista, fez aprovar um decreto que suspendeu as liberdades civis e iniciou a perseguição à oposição – e o controlo nazi das forças policiais foi crucial para a implementação destas acções.

A tomada do poder pelos nazis foi consolidada com a dissolução do parlamento e a convocação de novas eleições, a 5 de Março, que (com a ajuda da violência e intimidação exercidas pelas milícias nazis durante a campanha eleitoral) se traduziram no crescimento do NSDAP e na estagnação ou queda de todos os outros partidos. O domínio do NSDAP ficou ainda mais confortável com a expulsão do Reichstag de todos os 81 deputados eleitos pelo seu opositor mais tenaz, o Partido Comunista Alemão (KPD), e com a prisão de 24 dos 130 deputados eleitos pelo Partido Social-Democrata (SPD). A 24 de Março, com o apoio do NSDAP, do DNVP, dos católicos do Zentrum e dos restantes pequenos partidos conservadores, num total de 444 votos favoráveis, e tendo como votos contrários apenas os 94 deputados remanescentes do SPD, o governo de Hitler viu aprovada a Lei de Concessão de Plenos Poderes.

A nova lei permitiu a Hitler governar sem necessidade de ouvir o Reichstag e sem estar limitado pela constituição, deixando-o, menos de dois meses depois de ter tomado posse como chanceler, com as mãos livres para assumir o controlo absoluto da máquina do Estado e eliminar qualquer forma de oposição – na verdade, dois dias antes da aprovação da Lei de Concessão de Plenos Poderes, já entrara em funcionamento, em Dachau, o primeiro campo de concentração nazi, concebido originalmente para albergar prisioneiros políticos, mas que acabaria por receber todo o tipo de pessoas julgadas indesejáveis pelos nazis.

Franz von Papen, o político astuto que julgara ser capaz de manobrar Hitler e amansar as suas inclinações radicais, viu, a 10 de Abril, os nazis extinguirem o seu cargo de Reichskomissar para a Prússia, que passou para as mãos de Göring, com o novo título de Ministerpräsident. O papel de Papen como vice-chanceler foi ficando cada vez mais esvaziado, o que tentou contrariar, em Maio de 1934, pressionando o agonizante (e também cada vez mais irrelevante) presidente Paul von Hindenburg a redigir e assinar um testamento político que repunha o poder de Papen e dos conservadores – e que não produziu efeito algum. Quando da Noite das Facas Longas (um “ajuste de contas” dentro do NSDAP, visando, em particular, a liderança das SA), entre 30 de Junho e 2 de Julho de 1934, o gabinete de Papen foi devassado e pilhado pelas SS, três colaboradores seus foram executados sumariamente e o próprio vice-chanceler foi colocado sob prisão domiciliária. Quando foi libertado, alguns dias depois, e se dirigiu à chancelaria, descobriu que já não tinha lugar nas reuniões do gabinete e apresentou a demissão. Hitler aceitou-a e o cargo de vice-chanceler foi extinto.

O presidente Hindenburg faleceu a 2 de Agosto de 1934 e, sem perder tempo, Hitler promoveu um referendo, a 19 de Agosto, perguntado aos alemães se desejavam que os cargos de presidente e de chanceler fossem fundidos num só – 90% dos votantes responderam que sim. Com a ajuda de “idiotas úteis” como como Papen, Hitler era agora o senhor absoluto da Alemanha.

Com o mundo ainda a braços com a Grande Depressão e com os países europeus preocupados com a ascensão dos nazis na Alemanha, poucos terão dado pelo que, em 1933, se passava na Ucrânia. Stalin, o senhor absoluto da URSS, estava determinado a reformar de alto a baixo a estrutura da economia soviética e, no início dos anos 30 desinvestiu da produção agrícola em favor da indústria pesada e promoveu a colectivização forçada da agricultura, que, naturalmente, suscitou o antagonismo dos proprietários rurais. A deportação de 5 milhões de kulaks, isto é “camponeses ricos”, aniquilou, de forma brutal, parte da resistência, mas nalgumas regiões, como a Ucrânia e o Cazaquistão, os pequenos proprietários continuaram a opor-se à colectivização, pelo que Stalin decidiu submetê-los pela fome: embora o ano agrícola tivesse sido pouco pujante, em resultado da falta de chuva, os camponeses ucranianos foram confrontados com a imposição de quotas de produção irrealistas, que seria impossível cumprir mesmo no mais generoso dos anos, e com a requisição pelo Estado de grandes quantidades de cereais. O resultado foi que, embora 1932-33 tenha sido um período de fome em toda a URSS, esta manifestou-se com muito maior intensidade na Ucrânia, onde terá causado entre 3.5 e 7.5 milhões de vítimas.

As fomes generalizadas foram recorrentes na história russa (e na do resto do mundo), mas a fome de 1932-33 na Ucrânia foi diferente: foi uma fome “artificial”, criada deliberadamente pelo regime soviético para eliminar a resistência à colectivização da agricultura e para suprimir as aspirações independentistas que a Ucrânia tinha alimentado desde a Revolução Bolchevique. Mesmo sem conflitos bélicos ou catástrofes naturais grande envergadura, o ano de 1933 foi, indubitavelmente, um dos mais sinistros da história.

1939: II Guerra Mundial

Há historiadores, com indisfarçado apreço pela extrema-direita, que defendem que, até 1 de Setembro de 1939, quando a Alemanha invadiu a Polónia, o regime nazi foi “um regime como outro qualquer”. Não é verdade: o regime nazi entre 1933 e 1939 não poderia, em caso algum, confundir-se com uma democracia e tinha diferenças assinaláveis em relação aos outros regimes autoritários de direita que emergiram na Europa no período entre guerras (Espanha, Portugal, Grécia, Jugoslávia, Polónia, Hungria, Estados Bálticos, Roménia, Bulgária, para lá, claro, de Itália, que fora pioneira).

Desde que ascendera ao poder, Hitler retirara a Alemanha da Sociedade das Nações, galvanizara os alemães com as suas arengas coléricas sobre a necessidade de vingar as afrontas sofridas após a derrota na I Guerra Mundial, conquistar “espaço vital” (Lebensraum) e arranjar uma solução para o “problema judaico”; inculcara nas massas (e em particular nos jovens) um espírito militarista, ultra-nacionalista, racista e fanático; pusera em prática um amplo programa de rearmamento, contornando ou atropelando as limitações estabelecidas pelo Tratado de Versailles; redireccionara a economia alemã de forma ficar ao serviço do esforço de guerra; reocupara zonas desmilitarizadas; e multiplicara as exigências territoriais, as pressões e as ameaças sobre os países vizinhos (e, como bully que era, garantia sempre que a exigência em questão era a derradeira que faria).

Somando esta conjugação de actuações com o tenebroso programa explanado em Mein Kampf, seria fácil deduzir que, independentemente dos esforços de apaziguamento/contenção empreendidos pela Grã-Bretanha e pela França, a Alemanha desencadearia uma guerra de conquista, mais cedo ou mais tarde.

O que era menos fácil de prever, antes de Setembro de 1939, é que essa guerra seria conduzida pelos nazis com uma crueldade, desumanidade e ausência de escrúpulos inauditas, o que, aliado a um extraordinário progresso na tecnologia bélica, explica que, ao longo de seis anos, a II Guerra Mundial tenha causado cerca de 60 milhões de mortos (20 milhões de soldados e 40 milhões de civis).

Todas as guerras correm o risco de incluir, por força do stress, da erosão dos padrões éticos e de uma escalada de represálias entre beligerantes, vários episódios bárbaros, mas a guerra que os alemães iniciaram em 1939 distingue-se por a barbárie ter sido longamente premeditada, meticulosamente planeada e sistematicamente exercida. Veja-se o caso da invasão da Polónia: foi a primeira acção da guerra e os alemães (e os soviéticos) esmagaram os polacos com facilidade; e, todavia, ainda os combates não tinham cessado e já estava em curso a Operação Tannenberg, um programa de extermínio sistemático das elites polacas (militares, políticos, intelectuais, professores), que estavam identificadas numa lista de 60.000 nomes que a Gestapo começara a compilar em 1937. A Operação Tannenberg não foi uma represália ou uma reacção extemporânea, era consequência natural da mundividência racista, desapiedada e hegemónica dos nazis.

1958: Grande Salto em Frente

Se alguma coisa distingue os regimes ditatoriais de extrema-esquerda dos de extrema-direita, não é certamente o respeito pela vida e dignidade humanas, que ambos desprezam e consideram uma ficção criada por intelectuais burgueses de coração mole: é que as ditaduras de extrema-direita tendem a cultivar um expansionismo agressivo e a trucidar os povos vizinhos, enquanto as ditaduras de extrema-esquerda tendem a causar mais mortos entre os seus. Dos muitos desmandos e erros grosseiros cometidos por Mao Tse-Tung, nenhum foi tão catastrófico como o Grande Salto em Frente, que pretendia converter uma China agrária em que a maioria da população vivia como na Idade Média, numa nação industrial de primeira linha, apenas pela força de decretos.

A colectivização forçada da agricultura, a tentativa de fazer nascer uma indústria siderúrgica em cada comunidade rural, a construção de sistemas de irrigação ineptamente planeados e ainda mais ineptamente construídos, a campanha de extermínio de pardais (que visava proteger as colheitas, mas acabou por potenciar as pragas de insectos, produzindo o resultado inverso) e uma série de medidas igualmente arbitrárias e/ou obtusas, resultaram numa forte quebra da produção de cereais, que passou de 200 milhões de toneladas em 1958 para 144 milhões em 1960. Como se, por si só, este decréscimo não fosse terrível para um país que há séculos vivia no limiar da subsistência, em 1959, Mao, recusando-se a aceitar o fracasso dos seus planos e num gesto de bravata para com o mundo, O resultado deste insensato programa que se estendeu até 1962 foram cerca de 15 a 55 milhões de mortes por subnutrição, o que faz dele o mais mortífero episódio de fome da história da humanidade. O que o diferencia de outros episódios de fome de grande magnitude é que esses tiveram origem, essencialmente, em causas naturais (tempo invulgarmente seco, chuvoso ou frio), eventualmente agravadas pela inoperância ou indiferença dos governantes, enquanto a Grande Fome Chinesa de 1959-61 foi obra da estupidez, malevolência e incompetência do governo chinês e do seu Grande Timoneiro.

Kofi Annan, secretário-geral da ONU, num discurso a 21 de Dezembro, declarou que “não há dúvida de que este foi um ano particularmente difícil e estou aliviado por este annus horribilis estar a chegar ao fim”. A afirmação é enigmática, pois 2004 não tinha registado nenhum conflito ou desastre natural de grandes proporções e tem sido interpretada como uma alusão não ao estado do Mundo (como se esperaria de um secretário-geral da ONU), mas a acusações de corrupção ao seu filho, Kojo, que estaria envolvido no desvio de fundos do programa da ONU Petróleo por Alimentos. Porém, é pouco prudente fazer balanços do ano antes de este ter chegado ao seu termo e, cinco dias depois, 2004 revelar-se-ia efectivamente horribilis, quando um sismo submarino com epicentro a norte de Sumatra, seguido de tsunami, causou 228.000 mortos e 1.7 milhões de desalojados nas costas do Índico, com os efeitos a fazerem sentir-se tão longe quanto Madagáscar e o Yemen.

Nem todos os eventos funestos são notados nas suas manifestações iniciais, pois só produzem consequências muitos anos depois – é disso exemplo a criação, a 4 de Fevereiro de 2004, por dois estudantes da Universidade de Harvard, de um website destinado a exibir os perfis dos estudantes do Harvard College que se registassem. A versão anterior do website, surgida em 2003 e visando o apuramento dos elementos mais sexy do corpo discente, tinha sido encerrada pela administração da universidade, por envolver quebras de segurança e violação de privacidade, mas o novo website, por só apresentar perfis de quem se inscrevia, não teve esses problemas e cresceu rapidamente em popularidade, de forma que, em Março, já se estendera às universidades de Columbia, Stanford e Yale. Em Setembro de 2006, saltou para fora do mundo universitário e tornou-se acessível a qualquer pessoa com mais de 13 anos e a empresas e em 2008 alcançou um milhão de utilizadores – em Julho de 2020 registava 2700 milhões de utilizadores activos.

A extraordinária popularidade deste formato de interacção “social” mediada pela Internet, levou ao aparecimento de “redes” análogas e, hoje, o Facebook (é dele que falamos) tem a concorrência do WhatsApp (2000 milhões de utilizadores), WeChat (1200 milhões), Instagram (1160 milhões), TikTok (690 milhões), Weibo (520 milhões), Snapchat (430 milhões), Pinterest (420 milhões) ou Twitter (250 milhões).

Ao promover o egocentrismo, o narcisismo, a vaidade, o consumismo, a superficialidade, a reacção impulsiva e indignada, a “mentalidade de rebanho”, o tribalismo e a proliferação de teorias conspirativas e de turbas de linchamento digital, e ao constituir-se como fonte privilegiada para obtenção de dados pessoais que são postos ao serviço da manipulação política e comercial, as redes (ditas) sociais são hoje uma das mais poderosas forças dissolventes da Humanidade – e tudo começou em 2004 com um inócuo website destinado a facilitar o “engate” entre estudantes universitários.

2020: Covid-19

O primeiro paciente infectado com um doença causada por um tipo de coronavírus novo para a ciência foi identificado a 1 de Dezembro de 2019, pelo que, quando, a 11 de Fevereiro de 2020, a OMS conferiu nome oficial à doença, associou-a a 2019 – todavia, a pandemia só se manifestou em 2020 e é a este ano que ficará associada. 2020 também teve incêndios florestais de gigantescas proporções na Austrália e na Costa Oeste dos EUA e uma escaramuça entre a Arménia e o Azerbaijão em torno do enclave de Nagorno-Karabakh; as guerras civis na Síria, Líbia e Yemen prosseguiram em lume brando e começou uma nova na Etiópia; a temporada de furacões no Atlântico registou um número recorde de 31 tempestades tropicais (13 dos quais atingiram o estatuto de “furacão”), o que levou ao esgotamento dos nomes começados por letras do alfabeto latino e obrigou a recorrer ao alfabeto grego para baptizar o resto da temporada. Porém, para quem não foi afectado directamente por estes eventos, é claro que a razão para considerar 2020 annus horribilis é a pandemia de covid-19.

Na coluna positiva do balanço de 2020, é provável que um pouco mais de metade dos americanos e a grande maioria dos habitantes do resto do mundo que acompanham a política internacional coloquem o resultado das eleições presidenciais americanas. Não tanto a vitória de Joe Biden, mas a derrota de Donald Trump, e não tanto por, no confronto ideológico entre Republicanos e Democratas, estarem inequivocamente com os segundos, mas por uma questão de carácter, já que Trump, revelando um entendimento estritamente pessoal e narcísico do seu cargo, nunca esteve à altura deste (na verdade, comportou-se mais como um decadente imperador romano) nem revelou outro interesse do que a perpetuação no poder, se necessário à custa do atropelo das instituições democráticas americanas, da revogação unilateral de compromissos internacionais e do envenenamento das relações dos EUA com o resto do mundo (incluindo os seus aliados). Porém, a derrota do mais autocrático, errático e incompetente presidente americano das últimas décadas não pode ser inscrita como um saldo integralmente positivo, já que a polarização da sociedade, o radicalismo, a intolerância e as teorias conspirativas e atoardas que promoveu incansável e despudoradamente ao longo de quatro anos não serão apagados magicamente a 20 de Janeiro de 2021.

Um exercício de história alternativa

Quanto à covid-19, a sombra que projecta pode tornar-se menos opressiva se se fizer o exercício de a colocar na perspectiva histórica: se fosse ela a ter surgido em 1918, no lugar da gripe pneumónica, o mundo de então não lhe teria dado grande atenção. Por um lado porque, naquela época, a esperança média de vida à nascença era de 35 anos (média global), oscilando entre pouco mais de 50 anos nos países desenvolvidos e 25 anos na Índia, o que significa que a covid-19 encontraria poucas pessoas com mais de 70 anos, que são as suas vítimas preferenciais (recorde-se que a esperança média de vida global é hoje de 72 anos, com a maior parte dos países desenvolvidos a exceder os 80 anos). Por outro lado, em 1918, a subnutrição estava muito mais difundida do que a obesidade, que é um dos principais factores de risco da covid-19. Na verdade, a obesidade generalizada é um problema tão recente que é difícil encontrar dados sobre ela anteriores à década de 1960, mas não tem cessado de aumentar vertiginosamente desde então: nos EUA, a prevalência da obesidade nos adultos em 1962 era de 13%, em 2002 era de 33% e em 2018 de 42% (com a obesidade grave a representar 9%), o que leva a que, actualmente, morram por ano 300.000 americanos devido a problemas de saúde associados à obesidade. A nível global, a OMS estima que ocorram 2.8 milhões de mortes/ano devido à obesidade, enquanto a contagem de vítimas da covid-19 se aproxima de 1.8 milhões – a obesidade é, feitas as contas, uma pandemia mais mortífera do que a covid-19, mas, como a percepção de risco pelo cidadão comum é gravemente enviesada, não causa “alarme social” nem sequer é percebida como um problema.

Outro factor de peso que levaria a que a comoção causada pela covid-19 em 1918 fosse reduzida tem a ver com a atitude da sociedade perante a morte: em 1918, não só a morte de alguém com 75 ou 80 anos era encarada com fatalismo, como a Europa estava a sair de uma guerra que, durante mais de quatro anos, trucidara sem remorso a fina-flor dos seus jovens – matando 10 milhões e ferindo 20 milhões, como se referiu acima – sem que as massas esboçassem um gesto de oposição a esta carnificina vã.

Para mais, em 1918 a ciência médica encontrava-se num estádio incipiente e embora a existência de vírus já fosse postulada, passariam ainda alguns anos até que o desenvolvimento do microscópio electrónico os tornasse visíveis; os primeiros medicamentos anti-virais apenas surgiram na década de 1960 e seriam precisas muitas décadas mais até que se ganhasse a capacidade de sequenciar o genoma dos vírus e de criar testes para identificar a sua presença. Uma vez que não seria possível detectar o SARS-CoV-2 através de testes e que a maioria dos infectados não apresentaria sintomas ou manifestaria sintoma muito ligeiros, indistinguíveis dos que estão associados a constipações e gripes, as autoridades de saúde de 1918 não teriam noção da propagação do vírus na comunidade, nem seriam capazes de apurar quais das mortes nos escalões mais idosos se deveriam à covid-19 ou a outras doenças.

Atendendo a que as mortes por covid-19 seriam relativamente poucas numa sociedade cuja pirâmide etária que afunilava fortemente a partir dos 70 anos, é pouco provável que os governos e as autoridades de saúde de há 100 anos se dispusessem a combater a doença impondo medidas de confinamento ou de restrição à circulação e menos provável ainda seria que os cidadãos as acatassem ou as adoptassem por sua iniciativa, pelo que o funcionamento da sociedade e da economia prosseguiria sem grandes alterações. Assim, a covid-19 espalhar-se-ia rapidamente por todo mundo e a “imunidade de grupo” seria atingida ao fim de pouco tempo. A “factura” desta “Imunidade de grupo” seria uma mortalidade acrescida nos escalões etários mais idosos, pois a medicina de 1918 seria completamente impotente para tratar a covid-19 – também os ventiladores e outros sistemas de suporte de vida estavam ainda muito distantes no tempo e o desenvolvimento de uma vacina poderia exigir muitas décadas de investigação –, mas estas mortes seriam vistas como inevitáveis e aceites com resignação. Felizmente, a valoração da vida humana e, em particular, da vida dos elementos mais idosos da sociedade, alterou-se drasticamente nos últimos 100 anos e as sociedades e a opinião pública de hoje (sobretudo nos países mais desenvolvidos e mais democráticos) tornaram-se muito menos tolerantes à morte, advenha ela de doenças, guerras ou catástrofes naturais – daí que boa parte da sociedade de 2020 tenha aceite restringir a sua liberdade de circulação a fim de defender a saúde dos mais vulneráveis. Os últimos 100 anos também trouxeram progressos formidáveis nas ciências médicas, pelo que, apenas um ano após a primeira ocorrência registada da covid-19, foi possível criar, testar e fazer entrar em produção em massa uma mão cheia de vacinas diferentes, que, nalguns países, já começaram a ser administradas. É uma perspectiva que ajuda a tornar menos lúgubre o ano de 2020.

HISTÓRIA   CULTURA

COMENTÁRIOS:

Maria Carreira: Muito bom. Aprendi e relembrei muito. Parabéns.       Paulo Alves: Artigo espectacular e verdadeiramente interessante, obrigado!    João Massano: Excelente texto, muito obrigado! A reflexão final sobre os efeitos potenciais da COVID-19 na sociedade de 1918 está muito bem delineada, assim como a mudança de mentalidade ao longo do tempo relativamente à "tolerância" social à morte nas faixas etárias mais elevadas. Parabéns!      Pedro Queirós: Excelente. Os meus parabéns. Enriqueci e muito os meus conhecimentos históricos. A súmula final é brilhante. Obrigado        Y H W H: 2020:  não foi certamente... atente-se aos números estimados para os anos de peste negra na idade média, ou para os anos das grandes guerras do século XX, ou para os longos e mortíferos conflitos europeus anteriores ao século XX, ou para 1755...       José Afonso: É tempo de aprender, pois a pandemia do Covid19 é leve face ao que poderia ter ocorrido ou poderá ocorrer futuramente noutras pandemias.        bento guerra: A diferença é que, desta vez, são os governantes que deitam as suas próprias economias para baixo. Talvez porque temos "três graças" a mandar na Europa

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