terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Um conto possível em tempos de crise?



Três quartos de um amor
Amor aos pedaços? Que sentido tinha? Quatro quartos, a unidade, dois num só, mas fora antes. Hoje sentia-se frustrado, em busca do quarto que lhe escapava. Sabia que três quartos lhe pertenciam, desse amor que se revelara paralelo ao seu próprio sentir de homem profundamente apaixonado, mas sempre que se propunha colher a extinta plenitude desse êxtase amoroso que os unira, a mulher, agora, imobilizava-se, o olhar fixo, perdido no seu mundo de rejeição inexplicável, numa perda súbita de vontade, o corpo inteiriçado, tal uma corrente eléctrica aleatoriamente interrompida, a meio do seu percurso fulminante, por oculto interruptor propício.
Em vão se interrogava, em vão a interrogou, a essa mulher agora escorregadia, sobre o seu estranho procedimento de uma meiguice subitamente e sadicamente desmantelada, a mulher escapando-se-lhe, cega, surda, muda, os traços do seu rosto subitamente e rigidamente imóveis, mau grado essa anterior cedência, a breve trecho estranhamente interrompida.
Não, ela não chegaria a explicar o motivo desse quarto faltoso, num amor de três quartos hoje, sadicamente quebrado, numa ternura de repente inteiriçada, bem diversa da plenitude anterior, quatro quartos de uma unidade amorosa de absoluta fusão anterior.
 A explicação chegou por carta, encontrada após a sua morte, na gaveta da escrevaninha onde guardava os seus papéis. Tratara-se de uma doença terminal, subitamente detectada por médico discreto, e que ela calara à família, e mais ainda ao homem amado, a quem não desejava ferir antecipadamente com a notícia da sua morte para breve. Não, ela não tinha o direito de ser feliz, amando em liberdade e em plenitude, preferindo deixar uma imagem grossa de dona do seu destino, propícia a uma zanga forte do seu homem, que o deixasse, pela revolta, ainda a vir a ser feliz em plenitude, em nova vivência, que a ela já não pertenceria.
A raiva e a revolta contra esse destino trágico que breve a arrebataria à vida, travavam-lhe quaisquer ímpetos humanos de uma felicidade a que não tinha direito, em breve pertencente ao nada donde viera e que a esperava sem alternativa. Não tinha o direito de provocar bons sentimentos ou de deixar gratas recordações, para não adensar a dor futura com o travo da saudade. Era dona do seu destino até à consumação do seu tempo na Terra, desejava ainda sê-lo do homem amado, favorecendo a perspectiva de um novo relacionamento deste, sem o espectro ameaçador do mau destino que a vitimara a ela.
Daí, a sua estranha atitude de um repente amoroso jamais concretizado, amor despedaçado a parecer sadismo, mas a ser, de facto, heroicidade, pela anulação de si mesma. Como uma bola de sebo monstruosa, um quarto de si fazia desvanecer os três quartos que teimavam em humanizá-la em distensão de ternuras, mas que se recusava subitamente a concretizar, suspensa do seu pesadelo de vítima consciente do seu nada precocemente irredutível.


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