sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

A distracção no caos


Já foi assim, foi sempre assim, e vai assim continuar, o mundo. Há quem se recreie com isso, Álvaro de Campos foi desses, que lemos com prazer, quando a preocupação é grande. Masoquismo ou sadismo se chamará, ele deu provas disso em imaginação ferina. Um jovem – Sebastião Bugalho – revela preocupação, objectivada em dados concretos sobre as ameaças desse mundo, sobre os cinismos também. Voltemos à “ODE TRIUNFAL”. Desportivamente, enquanto não nos caem em cima o Carmo e a Trindade.
Excerto da “ODE TRIUNFAL”
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Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

                        Londres, 1914 — Junho.

Será uma década de intolerância /premium
Ao que tudo indica, a próxima década será de intolerância no mundo. E a resposta de uma jovem democracia europeia, como a portuguesa, não é fácil nem evidente.
OBSERVADOR, 03 jan 2020
Os últimos meses de 2019 dizem-nos bastante sobre o que será da década inaugurada esta semana. Em Nova Iorque, só em dezembro, a comunidade hebraica sofreu 13 ataques e tentativas de agressão na via pública. Entre esfaqueamentos e tiroteios, os crimes de ódio anti-semita dispararam 21% no ano que terminou.
No Reino Unido, o Partido Trabalhista sofreu a sua pior derrota eleitoral em décadas, encontrando-se dilacerado pelo radicalismo de Jeremy Corbyn e desacreditado pelo anti-semitismo do seu movimento. Também em dezembro, há cerca de um mês, 14 cristãos foram assassinados por terroristas islâmicos no Burkina Faso. Na Índia, o final de 2019 foi marcado por protestos contra a nova lei da nacionalidade, que exclui cerca de 200 milhões de cidadãos muçulmanos. Em novembro, uma investigação do New York Times revelou ordens confidenciais do Partido Comunista Chinês para os campos de concentração em Xinjiang “não mostrarem qualquer misericórdia” face às minorias religiosas da região.
A polarização da retórica política no Ocidente, o terrorismo islâmico em África e o crescente iliberalismo das potências asiáticas colocarão a liberdade religiosa sucessivamente em causa nos próximos dez anos. Será, ao que tudo indica, uma década de intolerância no mundo. E a resposta de uma jovem democracia europeia, como a portuguesa, não é fácil nem evidente.
Economicamente, os últimos governos viveram um ciclo de aprofundamento de relações com a China e — à esquerda e à direita — ouviram-se poucos críticos a essa aproximação. As referências aos direitos humanos e à liberdade religiosa foram muito pontualmente feitas pelo Presidente da República, quando visitou Pequim. Por outro lado, a única líder partidária que se pronunciou publicamente sobre as perseguições a cristãos em 2019 foi, perdoem-me o facciosismo, Assunção Cristas. O regresso do anti-semitismo à América e à Grã-Bretanha é um problema, por enquanto, quase desconhecido em Portugal. Os campos de reeducação religiosa na China, onde os trabalhos forçados e a violência são prática comum, passam igualmente despercebidos.
No mês passado, enquanto a Índia ardia em protestos que reclamavam a manutenção do secularismo que a mantém unida, António Costa declarava a sua “amizade” ao homem que está determinado a por termo a esse secularismo: Narandra Modi. Depois de o primeiro-ministro indiano proibir as manifestações que despontaram por todo o país, prender pacifistas e aprovar leis que roçam o racismo, o primeiro-ministro português brindou o Twitter com sorrisos e sentimentos “vibrantes” de fidelidade.
Este texto não é, atenção, uma crítica política, mas antes a constatação de que o posicionamento português perante o nacionalismo indiano — ou o chinês, já agora — dificilmente poderá permanecer tão entusiástico nos novos anos vinte.
Basta conversar com um cidadão indiano para entender os receios da comunidade muçulmana. Basta ler a legislação de acesso à cidadania para vislumbrar o objectivo de tornar a Índia um Estado-hindu. Basta ver o aumento de ataques contra cristãos e muçulmanos para detectar as consequências da visão teocrata de Modi. Nas populações rurais e mais remotas do país, por exemplo, onde os processos de registo e identificação civil ainda não chegaram, teme-se que aqueles que são muçulmanos sejam levados para campos de detenção semelhantes aos recentemente expostos na China.
Pessoalmente, não creio que um português se queira dizer “amigo” destas desumanidades. A próxima década o dirá.


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