quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Um “furo”


“As Três Marias”, uma história talvez fictícia, mas com sabor a história real, da escritora brasileira Rachel de Queiroz, um livro que encontrei na estante do meu pai, o qual retrata as vidas de três Marias e mais algumas das suas colegas pensionistas num colégio de freiras, micromundo já de experiências e distinções sociais, segundo a ágil condutora da intriga – Guta, uma das três Marias – Maria Augusta - que vai habilmente revelando as variadas facetas de destinos mais ou menos cinzentos, entre os quais o seu, de divergências, contrastes e situações realisticamente referenciadas, sem a aura romântica dos tempos das irmãs Brontë, tempos também sombrios, mas iluminados ainda pela suavidade crítica das distinções sociais, e dos contrastes comportamentais, com, todavia, os finais felizes para os verdadeiramente distintos na hierarquia dos sentimentos, acompanhados, é certo, da hierarquia social, para regalo das nossas almas, aspirantes ingénuas à excelência dos caracteres e dos destinos. Eram livros românticos, esses, como também os do nosso Júlio Dinis, que a pena admiradora mas suavemente crítica de Eça de Queirós traduziu em frase lapidar, de carinho irónico, embora “leve”, pelo que implica de repúdio das suas histórias de harmonia - “Júlio Dinis viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve”. E no entanto os livros deste brilham ainda, em edições contínuas, encantadores e formativos, na sobriedade elegante de um discurso sem as brechas de muitos dos empolamentos ou desvirtuamentos discursivos que tantas vezes se observam na literatura contemporânea, para efeitos de uma originalidade tantas vezes apenas de snobismo, sem a dimensão pretendida. “As Três Marias”, publicado em 1930, é um romance que se enquadra já numa escola mais modernista, embora sem os ressaibos críticos do sistema, do nosso neo-realismo em ascensão, mas de uma análise lúcida das realidades, tanto psicológicas como sociais, livro precoce, que contribuiria para os muitos prémios e homenagens que Rachel de Queiroz recebeu ao longo da vida.

Li-o por curiosidade, pois andava a decifrar o nosso “Livro das Três Marias”, como é conhecido, creio que mundialmente, o “Novas Cartas Portuguesas”, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, e cuja leitura novamente interrompi, para reler as “ Cartas de Amor de Soror Mariana”, livro comprado em Moçambique, em bela edição da Artis, cinco cartas em letra grande, precedidas de uma restituição e esboço crítico de Jaime Cortesão e com ilustrações de Lima Freitas, cartas que historiam a paixão de “Mariana Alcoforada”, religiosa em Beja, pelo cavaleiro de Chamilly, em caso que naturalmente deu escândalo, na sua família e na sua terra.

E são essas cinco Cartas de paixão e arrebatamento, de desmesura no sofrimento, mas reveladoras de uma estranha qualidade psicanalítica, que serviram de leit-motiv para o “Livro das três Marias – “NOVAS CARTAS PORTUGUESAS”, para, entre muitos outros motivos da sua aventura novelística, dele se servirem recriando, entre outras “aventuras pelo universo feminino”, personagens dessa derivadas, como amigos e familiares de Mariana Alcoforado, contemporâneos ou seguidores no tempo, chegando mesmo à actualidade que se centra na data de execução da obra – 1971.

É pois, este, como já aqui referi, «um livro poderoso, de intenções políticas, de estrutura vária, de linguagem feita ora de ambiguidade, ora de simplicidade prosaica a tender para a diversão trocista, sobretudo quando pega na linguagem simples do povo iletrado, e tendo, como ponto de partida, as cinco “Cartas” lacrimosas ao cavaleiro de Chamilly, da desgraçada amante Sóror Mariana Alcoforado, e como fio condutor, o ódio feroz ao homem dominador da sociedade machista portuguesa, às mães submissas e castradoras das filhas que condenavam à “fogueira” conventual, movidas por preferências de outros afectos a outras filhas que destinavam ao casamento interesseiro, um livro de ódio, um livro de “três Marias” que jamais se identificam, na complexidade dessa estrutura que contém poesia, cartas e narrativas várias de figurantes vários, breves acções de violência sexual e criminal perfeitamente desinibida, um espasmo de ódio por uma sociedade machista e por um regime político que se pretende destruir. Estou a ler e admiro, conquanto nem sempre perceba os rebuscamentos linguísticos de alguns troços narrativos, sem uma argumentação directa, porque grande parte das vezes ambígua, mas inegavelmente rica de intencionalidade perversa que tudo leva de vencida, orquestrada pelos afagos de mudanças do “Maio de 68” e da orientação “pedagógica” obtida com “Le Deuxième Sexe” e movimentos feministas afins.

Não sendo romance em torno de personagens centrais, trata-se, todavia, de uma novela forte de criatividade em torno da condição feminina no nosso país, com variedade de figurantes femininos ou masculinos, próximos ou arredados no tempo, marcando o seu posicionamento numa sociedade que de um modo geral se despreza – quer no pedantismo das classes mais elegantes, quer na humildade subserviente das classes serviçais, cujas vozes e pronúncias sobressaem, de intenção redutora, se não de diversão trocista.

Nada, pois, de muito criativo, e fruto, sobretudo, de especulação crítica que teve – e parece ter ainda, ao que vejo na Internet – bastante impacto mesmo a nível mundial.

Passando ao lado das “poesias” quantas vezes em discurso directo, fruto de entretenimento pessoal, mais ou menos rebuscado, e das cartas ou das narrativas de situações estratégicas fulcrais, de erotismo sórdido ou de dramatismo vingativo, há, no livro, passos da condenação do sistema político vigente, extremamente lúcidos no seu razoado seguidor de uma linha política profundamente adversa ao sentido patriótico que constituiu a divisa “Deus, Pátria e Família” do regime salazarista a destruir.

Um livro controverso, é certo, na desordem de uma estruturação que implica o próprio apagamento da autoria dos textos, livro pesado na sua dispersão, que satisfaz um objectivo – o do apontamento de uma realidade desde sempre violadora dos direitos femininos e a pretensão de vir a terreno terçar armas em defesa da Mulher. Livro, pois, repito, de estrutura vária, que se observa nas intenções, na indefinição das autorias, na pluralidade de intrigas e de formas literárias – que implicam poesias amplas de significado, no descritivo forte e ambíguo, epístolas e narrativas de conteúdos centrados na condição da mulher de todas as épocas e de todas as estruturas sociais, de vicissitudes, de rebuscamentos literários, de carga emotiva, de variedade linguística e de composição literária, de problemática amorosa, de crítica social subentendida, nas temáticas da violência doméstica, de ardor amoroso, de experiência vivida, de conhecimento literário. Um livro provocatório, um livro original, um livro controverso, mas que nos orgulha como criação nacional: «NOVAS CARTAS PORTUGUESAS», um vendaval. Um “furo”, afinal, “à la page”.

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