quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Corridinho


Não é exclusivo algarvio, este, aliás, remexido e bem vistoso. Corridinho é também a dança vária e impertinente da nossa pobre herança política, que mata os bons e esfacela o que pode, no país pelintra, que Maria João Avillez bem define, na sua escrita desafiante, que, também remexida e vistosa, nos deixa apenas admiradores basbaques mas inertes.

As heranças /premium

Um orçamento não estreado mas já esfrangalhado entre a pandemia, as exigências das esquerdas radicais e o oportunismo político. Haverá pior? Talvez, futuro é que não.

MARIA JOÃO AVILLEZ          OBSERVADOR, 25 nov 2020

1.Já se sabe, é inescapável: Francisco Sá Carneiro será lembrado e homenageado este mês de Dezembro em todos os tons, e sabe Deus até por aqueles que ele detestaria que o fizessem mas a natureza humana sendo o que é, passo adiante. (E não era agora que ia haver uma estreia absoluta de homenageantes da 25ª hora: as lágrimas de crocodilo têm a idade do mundo e a prática da batota também). Sucede que para lá de efemérides que por definição se circunscrevem a um momento e no dia seguinte se diluem em nova efeméride, recordar Sá Carneiro, interessa. Politicamente interessa mesmo muito. O que ele representou ontem e simboliza hoje está muito para além de qualquer data por emotiva ou sentida que seja. Mas o então líder do PSD só interessa se se perceber… por que interessa. Isto é, que o seu exemplo nos é acessível, que o que fez politicamente é exequível, que o seu legado é absolutamente repetível.

Em resumo: há que herdá-lo. Só isso vale a pena. Substituindo a tentação tão portuguesmente sebastianista de o mitificar, pelo compromisso de rentabilizar a sua herança. Os tempos estão feios e as vontades perderam qualidade? Paciência. Há, dentro e fora de portas o espectro da deliquescência a consumir-nos? Há. O combate é desigual? É desigualíssimo. O que distingue porém um lutador consequente e patriota é lutar sem cansaço segundo cada circunstância e com os instrumentos de que dispõe à passagem de cada tormentoso cabo. Foi o que Sá Carneiro fez. Primeiro com a improvável Ala Liberal onde expôs a agonia do regime e adubou o chão do futuro PPD; depois com o próprio PPD, um partido que viria a ser um cabo dos trabalhos; depois com a dificultosa AD e finalmente com o entendimento de que governar era simplesmente servir o país. (“primeiro o país, depois a democracia, depois o partido”)

Sá Carneiro agiu sempre cercado. Pelos outros e pelos seus, que quantas vezes não se encarregaram eles mesmos da montagem do cerco — e do circo. Um agregado familiar transversal e singular onde, desde o primeiro minuto da sua existência até ao último da vida do próprio Sá Carneiro abundaram, como em nenhuma outra formação partidária, querelas, amores, ódios, abandonos, intriga, discordâncias, fracturas, rupturas, cisões. Um solitário caminho de pedras. Em cada etapa, Sá Carneiro deixava cair o joio e utilizava o trigo para fermentar a mudança por que sempre se bateu. Na Ala liberal, no PSD, na AD, no Governo. O modelo foi sempre o mesmo: a substituição do então estado das coisas pela plena democracia. Desde os anos sessenta do século passado até 1980, nunca cedeu a mudá-lo. Nunca desistiu, nunca contemporizou, nunca se bateu por ser popular — era-o nas suas bases e nunca temeu estar sozinho na travessia. Politicamente teve a coragem de protagonizar como poucos o “mais vale só que mal acompanhado”. No auge da solidão política, tinha-se a si mesmo, enroupado na sua convicção. Horas depois de (imperturbavelmente) ter visto em 1978 a saída de dezenas de deputados da sua bancada parlamentar, disse a alguém (que está vivo e ouviu da sua boca o extraordinário desabafo) que “nunca estivera tão só mas nunca sentira tanto que tinha razão”.

2.Dir-me-ão que me repito e que isto é conhecido. Será. Mas ou se sabe porque na politica se admira alguém ou não. Ou se faz politicamente caso de uma postura, uma conduta e das razões que a justificam, ou não vale a pena homenagens. Ou se alcança porque é que nos grandes combates vale mais a pena por vezes ser impopular que acarinhado ou mais convicto que estabelecido, ou o combate se torna estéril e inútil. Admirar Francisco Sá Carneiro não é de borla. Tem o preço da responsabilidade. E a exigência moral, cívica e política da rentabilização da sua herança.

3.No mundo dos vivos a coisa está pior. António Costa publicitou quanto pôde a sua resistência – que mais parecia um sobranceiríssimo nojo – a negociar o Orçamento de Estado com o PSD. Com a geringonça já esgotada, restava a salvífica autorização para uma prova de vida do PCP aos seus camaradas: uma bombada de ilusão através de discursos confrangedores sobre felicidades que nunca existiram. De modo que agora, com um país praticamente trancado dentro de casa e com a polícia em cima se nos destrancarmos, teremos a excepção inimaginável de uma farta reunião partidária: centenas de carros na rua, aglomerados de gente, movimento, perigo de contágios numa sala com 600 pessoas lá dentro, num pavilhão em Loures. Assistiremos impotentes e envergonhado à esmola indecentemente concedida aos comunistas, a troco da sua (caríssima) viabilização do Orçamento. Umas contas de resto ainda não estreadas mas já esfrangalhadas entre as exigências da pandemia, a prepotência das esquerdas radicais e o oportunismo político. Haverá pior? Pode haver mas futuro é que não há. E pior herança do que deve se a política também não.

4.Ouvimos falar da vacina para Covid a toda hora e momento, dia e noite. Prometem-nos tudo, datas, acesso, marcas; falam-nos em quantidades e números, quase nos prometem o céu com a garantia da cura. Pois bem: face à desorganização e ao caos que ocorrem a nível nacional com a trivial vacina da gripe, como querem que acreditemos nas generosas encomendas que nos asseguram sem pestanejar que já fizeram, estão a fazer, irão fazer, vão chegar?

ORÇAMENTO DO ESTADO  ECONOMIA  FRANCISCO SÁ CARNEIRO  POLÍTICA

COMENTÁRIOS:

Filipe Paes de Vasconcellos: As Elites Portuguesas! Os Homens de excepção só aparecem na História de um País muito de vez em quando, De 30 em 30 anos. Quando um País tem a sorte de os encontrar deve acarinhá-los.

Não é o caso em Portugal. Vejamos a nossa elite. Para a aprovação do Orçamento de Estado para 2021 veja-se a fotografia da gente que nos tem (des) governado nos últimos 5 anos. Como é que o País se pode aguentar com esta gente? Vivam o Marcelo, o Ferro, o Costa, a Catarina/Louçã, e o Jerónimo. Que grande “sextilha “ de gente que é a nossa elite! Estes são a nossa elite. Que miséria! Continuemos para trás, porque alguém nos há-de dar um pão. E, mais não digo!         André Ondine: Um texto assertivo e com o qual concordo totalmente. Em relação à política nacional, esta transformou-se, desde que Costa usurpou e assumiu o poder, num jogo. Num jogo mal jogado e em que o VAR só faz aquilo que lhe traz popularidade. E as discussões orçamentais são leilões para ver quem aumenta mais a despesa pública, já que o PS dá a mão a todos os que lhe permitirem perpetuar o poder. Portugal é o tabuleiro de jogo do Habilidoso e do seu gangue. Jogam connosco e jogam baixo. A política nacional deveria ser comentada por Freitas Lobo, Gabriel Alves, Ribeiro Cristovão e Rui Santos, que já estão habituados à linguagem rasteira futebolistica que o Habilidoso trouxe para a nossa política. Mas, mesmo no futebol, quem ganha por pouco, ganha. Mesmo que seja por poucochinho. Quando o Habilidoso deixar o governo para preparar a sua candidatura presidencial a política portuguesa será um espaço mais bem frequentado. Isto, claro, se o PS tiver o talento de promover gente como Seguro, Assis ou Sousa Pinto em vez de optar pela continuação na mediocridade com Medina, Nuno Santos (Deus nos livre) ou Catarina Mendes.       Portugal, que Futuro: Julgo que Francisco Sá Carneiro merecia que este escrito lhe fosse integralmente dedicado. Sá Carneiro foi um político único, com um sentido de estado e de dever público, que lhe permitiu não só perceber os problemas intrínsecos da nossa então recente democracia, mas também lutar contra aqueles que no seu próprio partido foram incapazes de o perceber. Que a sua alma reste em paz.       Joaquim Moreira: Para falar sobre Sá Carneiro, sinto-me perfeitamente, à vontade! No tempo em que viveu e morreu, foi tempo da minha mocidade. Que não a pude gozar, na plenitude, em boa verdade. Porque foi o tempo em que servi Portugal, por força da minha idade. E nessa altura apoiava, em virtude da minha profissão, mas também por convicção, o maior responsável, por, em “25 de Novembro”, ter reposto, no caminho, a Revolução. Curiosamente, ou talvez não, o dia que continua esquecido, como se também tivesse falecido. Já sobre Sá Carneiro o que posso dizer agora, é que muitas das suas qualidades, não foram por este PSD, postas borda-fora. Antes são uma referência, pelos que gostam de se afirmar pela coerência! O que me leva a achar que os cartazes a lembrar algumas frases de Francisco Sá Carneiro, criados pelo Instituto com o seu nome, são a prova real, de que é bom ter memória em Portugal. Mas, como diz e bem, convém não esquecer os apoiantes, de última hora, que agora dizem ser. E, embora haja quem o queira fazer crer, não são, e não é certamente, quem, no momento, no PSD é poder!         Carlos Almeida: Excelente crónica na linha das prosas a que já nos habituou. Saudades do Sá Carneiro. Viva o 25 de Novembro. Sem ele provavelmente estaríamos presos a uma ditadura comunista.     Manuel Barradas: Maria João, absolutamente a propósito recordar Sá Carneiro         Manuel Magalhães: Nunca é demais exaltar a coragem, a dignidade e a coerência de Sá Carneiro, é importante que não esqueçamos este exemplo que nos dias de hoje é tão raro nos políticos de hoje...        António Sennfelt: O meu único comentário de hoje: Viva o 25 de Novembro!        advoga diabo: Mesmo com tradição em "Velhos do Restelo" e situacionistas profetas da desgraça, Portugal, como sempre, irá superar esta crise global!      Manuel Magalhães > advoga diabo: Irá superar, mas com o governo que temos, como é que Portugal irá ficar???    bento guerra: E a Europa vai entregar a presidência de seis meses ,a este país. Só prova que aquilo continua um faz de conta, para os media    Carlos Chaves: Caríssima Maria João, obrigado por mais esta crónica. Se não for a sua “voz” e de mais “meia dúzia”, que insistem (e muito bem) em mostrar a decadência a todos os níveis para que estamos a resvalar com esta esquerda extremista, parece que o resto dos nossos concidadãos até apoiam esta corrosão da democracia e da liberdade.

Nenhum comentário: