quinta-feira, 3 de outubro de 2019

A Espanha é grande e pode ceder bocados



Um texto estranho de um homem progressivamente estranho – para mim, pelo menos. Quando foi do caso Pedro Passos Coelho, fraudulentamente despojado de um governo cujas eleições ganhara, o socialista Francisco Assis, condenara - lembro-me bem – a atitude usurpadora do seu partido e do seu chefe Costa. Era um homem sábio, que eu costumava ouvir com apreço nos debates, educado sempre, para mais, o que comprovou na altura em que o seu partido fraudulentamente se instalara no poder e isso ainda repugnara ao seu sentido de hombridade e nobreza. Entretanto, lá nas Europas, creio, ganhou novas forças de uma ideologia menos drástica e adaptável aos sofismas de um governo de geringonça e ei-lo que se acomodou. É um homem culto, não há dúvida, e hoje toma o partido da esquerda, na questão da Catalunha, pugnando pela separação desta e acolitando-se ao reconhecido valor literário e filosófico de um homem político e lutador, hoje trazido à ribalta de um filme chileno. O que me espanta é, sobretudo, o despojamento de Francisco Assis, que se serve de um episódio entre um nacionalista defensor acérrimo da unidade de Espanha, atacando os que pediam a independência do País Basco e da Catalunha, em 1936, (tendo assim contribuído para a prisão de Unamuno, pela exaltada resposta deste, como nos conta Francisco Assis, o que a Internet confirma), para defender o separatismo que hoje a Catalunha exige. O que me parece é que Francisco Assis deseja com este seu texto, revelar a sua exuberante modernidade, apoiando o tal separatismo, que não convence, naturalmente, os nacionalistas espanhóis. Nem se compreende o período seguinte do seu texto, pois não é óbvio que o progresso de um povo dê lugar à falta de sentimento nacional desse povo. Porque cá por casa isso aconteceu - mas, enfim, sempre havia litorais distantes a separar-nos - o mesmo não acontece na Espanha coesa, embora cá como lá também dos Portugueses/ Alguns traidores houve algumas vezes". Diz, pois FA e isso não me parece óbvio: «Olhando para a sociedade espanhola somos levados a constatar um importante paradoxo. Por um lado, foi uma das sociedades que mais se modernizou, se liberalizou e se democratizou no contexto europeu nos últimos quarenta anos; por outro lado, revela imensa dificuldade em libertar-se de sectarismos atávicos e de superar antinomias desactualizadas.»
Não, não me parece óbvio, o que se vê hoje até, é os países gostarem de alargar os seus domínios, (não por amor pátrio , é certo, mas por ambição tramada, o que Trump exemplifica, despudorado que é). Mas aceitar que uma nobre Espanha se desfaça de uma parte do seu território, conquistado outrora e sucessivamente … Volto a citar o nosso Camões:

Canto III
17
«Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
Como cabeça ali de Europa toda,
Em cujo senhorio e glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda;
Mas nunca poderá, com força ou manha,
A Fortuna inquieta pôr-lhe noda
Que lha não tire o esforço e ousadia
Dos belicosos peitos que em si cria.

OPINIÃO
“Vencereis mas não convencereis“
Nos últimos anos viveram-se em Espanha tempos de radicalismo retórico e de acentuação excessiva de clivagens políticas e doutrinárias. Todos os partidos concorreram para que tal tivesse sucedido. Talvez seja a hora de recuperarem algum sentido de moderação.
PÚBLICO, 3 de Outubro de 2019
“Vencereis mas não convencereis. Porque convencer significa persuadir e para persuadir necessitais de algo que vos falta nesta luta: razão e direito”. Não é certo que Miguel de Unamuno tenha proferido exactamente estas afirmações no célebre confronto com José Millán-Astray ocorrido a 12 de Outubro de 1936 na Universidade de Salamanca. Isso, porém, é de somenos importância, já que o que conta não é o absoluto respeito pela literalidade do que terá sido pronunciado, mas antes a plena apreensão do espírito e do sentido de um conjunto de frases destinadas a projectarem-se na História.
Por estes dias a Espanha regressa a um tempo e a um espaço trágicos e à contemplação de um homem superior. Fá-lo através de um filme de um realizador de origem chilena, Alejandro Amenábar, intitulado Mientras dure la guerra. O filme trata dos últimos meses da vida de Miguel de Unamuno que decorrem no contexto da Guerra Civil espanhola. O episódio acima referido foi um dos mais marcantes desse sombrio período histórico espanhol.
Unamuno era reitor da Universidade de Salamanca e presidia a um acto académico que coincidia com a celebração da Festa da Raça. O ambiente era de grande tensão. A dada altura um dos oradores, catedrático de Literatura naquela Universidade, desferiu violentos ataques contra a Catalunha e o País Basco, bem como a todos quantos não compartilhavam os propósitos do movimento subversivo fascista, apelidando-os de “anti-Espanha”.
Unamuno, perante tais palavras, ter-se-á levantado e manifestado a sua viva oposição às mesmas. Terá sido nessa altura que Millán-Astray terá pedido permissão para falar e, no meio de uma enorme confusão, terá gritado “morram os intelectuais! Viva a morte! “. Unamuno, dando provas de uma extraordinária coragem, não terá interrompido o seu discurso e terá ousado mesmo imprecar frontalmente o Chefe da Legião.
Foram-lhe atribuídas as seguintes palavras que merecem ser citadas: “Acabo de ouvir o grito de “Viva a morte! “. ( … ) O General Millán-Astray é um inválido de guerra. Podemos dizê-lo sem usar um tom mais suave. Também o foi Cervantes. Mas os extremos não se tocam nem nos servem de norma. Desgraçadamente, há hoje demasiados inválidos em Espanha e brevemente haverá ainda mais, se Deus nos não ajudar. Causa-me dor pensar que o General Millán-Astray possa ditar normas de psicologia às massas. Um inválido que careça da grandeza espiritual de Cervantes sentir-se-á reconfortado ao observar o aumento do número de mutilados à sua volta. O General Millán-Astray não é um espírito selecto: quer criar uma Espanha nova à sua própria imagem. Deseja ver uma Espanha mutilada. “Esta foi a versão que passou à História pelas mãos de Portillo Pérez, um professor de Direito amigo de Miguel de Unamuno. Os dois principais biógrafos deste último, o casal francês Jean-Claude e Colette Rabaté, admitem que possa haver alguma discrepância com a realidade mas salientam o carácter excepcional daquilo que foi proferido, já que levou ao imediato saneamento de Unamuno de todos os cargos cívicos e políticos que desempenhava. O grande intelectual espanhol, ibérico e europeu morreria poucos meses depois.
É uma Espanha de novo profundamente dividida, preparada para ir a eleições legislativas pela quarta vez em dois anos, prestes a transferir os restos mortais do velho ditador para um cemitério comum e ansiosamente à espera da publicação das sentenças a aplicar aos ex-governantes catalães, aquela que, através do cinema, recorda e celebra um dos seus espíritos maiores, Miguel de Unamuno. Ignoro se as novas gerações espanholas lêem o antigo reitor de Salamanca e se o seu notável magistério moral e intelectual ainda exerce alguma influência no país vizinho. Por isso mesmo é importante que este filme gere polémica e instigue a discussão crítica.
Olhando para a sociedade espanhola somos levados a constatar um importante paradoxo. Por um lado, foi uma das sociedades que mais se modernizou, se liberalizou e se democratizou no contexto europeu nos últimos quarenta anos; por outro lado, revela imensa dificuldade em libertar-se de sectarismos atávicos e de superar antinomias desactualizadas. Este paradoxo não aponta para a ideia de duas Espanhas, mas sim para a representação de uma Espanha ainda demasiado enredada na contemplação das suas tragédias contemporâneas. É verdade que nenhum povo consegue expurgar em absoluto a dimensão trágica do seu percurso existencial. Nem nenhum povo, nem sequer nenhum indivíduo, como nos recorda o próprio Miguel de Unamuno numa das suas obras maiores, Do Sentimento Trágico da Vida.
Olhando para a sociedade espanhola somos levados a constatar um importante paradoxo. Por um lado, foi uma das sociedades que mais se modernizou, se liberalizou e se democratizou no contexto europeu nos últimos quarenta anos; por outro lado, revela imensa dificuldade em libertar-se de sectarismos atávicos e de superar antinomias desactualizadas.
Daqui a menos de um mês os espanhóis terão um novo parlamento. Não se auguram significativas mudanças. Muito provavelmente o PSOE ganhará sem maioria absoluta; a esquerda radical recuará um pouco; a direita, na sua diversidade, manterá mais ou menos a mesma votação. Ao fim de quatro eleições não será possível continuar a ignorar a evidência: a Espanha precisa de um novo “Pacto de Moncloa”. Há hoje quem acuse esse pacto histórico, alcançado no dealbar da democracia, de tudo e mais alguma coisa. Não creio que lhes assista qualquer tipo de razão. Esse pacto foi essencial, no seu tempo, para a consolidação do novo regime e para a aproximação do país ao projecto europeu.
Nos últimos anos viveram-se tempos de radicalismo retórico e de acentuação excessiva de clivagens políticas e doutrinárias. Todos os partidos concorreram para que tal tivesse sucedido. Talvez seja a hora de recuperarem algum sentido de moderação. A responsabilidade maior nesse esforço caberá, sem dúvida, ao PSOE, dada a enorme possibilidade de ganhar as eleições. Pedro Sanchéz já o terá percebido e assumido.
O homem que se apresentava como mais genuinamente de esquerda que os seus antecessores, o paladino de uma suposta pureza ideológica, o líder que se propunha a todo custo governar com o apoio da extrema-esquerda espanhola, deu lugar a um político de recorte centrista, aberto ao diálogo com múltiplos sectores da sociedade espanhola. Há, aliás, um momento paradigmático desta metamorfose: foi quando Sanchéz disse que não dormiria tranquilo se tivesse o Podemos a governar com ele. Creio que está tudo dito.
Militante do PS


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