Sempre gostámos dele, Amaro da Costa, na nossa casa antiga, embora os
filhos, jovens e mais dispostos aos brinquedos das suas idades, nem se apercebessem
muito disso. Os meus pais, sim, tinham também vivido em África,
acompanhavam-nos no pesar e na indignação, embora, as mais das vezes, em
silêncio. Por isso, nas eleições, nunca consegui demover a minha mãe de votar
no PSD. O meu marido e eu, éramos, de alma e coração, adeptos de CDS, embora eu
tenha, mais tarde, traído o espírito da competição – coisa que o meu marido
nunca fez, rígido nos seus princípios – votando no PSD, como recurso auxiliar
de uma eleição mais expectável. Mas sempre preferi os presidentes do CDS, Freitas do Amaral, Lucas Pires, Adriano
Moreira, Paulo Portas… que me pareciam de uma nobreza mais “antiga”. Por
isso, é com gosto que transcrevo o longo e expressivo texto de José Ribeiro e Castro sobre um “camarada”
de lide que bem merecia a referência, esse, sim, verdadeiro amante da sua
pátria dilatada - que povos mais poderosos pretendiam para as suas negociatas,
sob a aparência de virtuosa ideologia – camarada que, com a sua irrequietude
inquieta, estabeleceu as bases de um partido que trouxe algum conforto,
naqueles tempos de desconforto absoluto.
Amaro da Costa: seis anos que o tivemos,
40 que o perdemos
Uma vez Amaro da Costa explicou o tema de ser um “n.º
2” na política e como o seu papel era fundamental e, por vezes, liderante.
Sabia ser o n.º 2. Gostava muito de o ser porque o líder era o seu n. 1
JOSÉ RIBEIRO E CASTRO
OBSERVADOR, 04 dez
2020
Adelino Amaro da Costa, se fosse vivo, teria 77 anos. Se não tivesse sido aquela tragédia do Cessna, é normalíssimo pensarmos
que, hoje, estaria bem, ainda em grande forma. Era pessoa de excelente saúde,
física e mental. Não me recordo de o ver com problemas ou preocupações físicas
de qualquer ordem, honrava com brilho e distinção a bonomia dos gordos e tinha
invejável fortaleza moral e psicológica. Não havia abalo que o abalasse.
Nasceu
em Algés, em 18 de Abril de 1943,
na parte final da 2.ª Guerra Mundial. Tinha as raízes familiares em Odemira,
concretamente em Relíquias (a mãe) e em São Martinho das Amoreiras (o pai). Morreu
em Camarate, em 4 de Dezembro de 1980, na queda provocada de um pequeno
avião, que acredito ter sido um atentado contra ele. Em 1983, fui
surpreendido por uma descoberta que me martelou. Eu era membro da Assembleia
Municipal de Odemira, eleito numa lista da Aliança Democrática (coligação
PSD/CDS/PPM) com muitos outros, entre os quais o pai do Adelino, o respeitadíssimo
Eng.º Manuel Rafael Amaro da Costa, grande engenheiro, a quem muito deve
Portugal, em especial a Madeira e o Alentejo. Uns amigos tinham retomado a
publicação mensal do jornal “O Odemirense”, onde fazíamos oposição à Câmara,
liderada pelo PCP. Fartava-me de escrever para lá. E, para aligeirar,
ocupei-me também de investigar a História de Odemira, publicando pequenas
crónicas.
Alguém
me disse que o Almirante genovês chamado pelo nosso rei D. Dinis para fundar
a marinha em Portugal tivera
autoridade em Odemira. Fui ver. Era verdade. Confirmei na “História de
Portugal” de
Veríssimo Serrão, no 1.º volume, que cobre o período de 1080 a 1415. O Almirante Manuel Pessanha (Pesagno, de apelido original) recebeu
de D. Dinis, como prémio, direitos sobre várias terras: reguengos de Frielas,
Unhos, Sacavém e Camarate, reguengo de Algés, castelo e vila de Odemira.
Quando
li isto, foi como se levasse uma estalada. Não sendo dado confabulações
cabalísticas, o destino de Adelino Amaro da Costa
cruzava-se com o mapa do Almirante Pessanha:
o Adelino fez tropa na Marinha,
na Reserva Naval, onde conheceu Freitas do Amaral; era odemirense dos quatro costados; nasceu em Algés; morreu em Camarate. Coincidências.
1.O pré-fundador do CDS, o primeiro de muitas funções
Desse
encontro marinheiro com Freitas do
Amaral nasceu uma
amizade para a vida, uma relação pessoal e política como raramente se viu.
Provavelmente não teria existido CDS, se não tivesse havido aquele encontro que
cruzou os caminhos dos dois principais fundadores.
O
CDS, Partido do Centro Democrático Social, surgiu quase três meses depois do 25
de Abril: em 19 de
Julho de 1974. Para um grupo de pessoas não previamente organizado, foi uma grande
proeza, sem dúvida, conseguir fazê-lo em tão pouco tempo. Mas representou,
ainda assim, um atraso significativo relativamente àquele que seria o seu
principal concorrente, rival e aliado: o PPD, apresentado logo em Maio, que era
sequência da “Ala Liberal” de 1969/73.
Adelino
Amaro da Costa, que gostava
muito de escrever para a imprensa, fez de S. João Baptista do CDS, em três
artigos consecutivos, textos históricos, publicados em 26 de Junho, 1 de Julho
e 19 de Julho de 1974: “Democracia
pluralista – objectivo das Forças Armadas” (Diário
Popular), “Centrismo:
uma política de acção” (O Século)
e “Governar, na democracia (Diário Popular). Relendo-os, depois,
percebe-se que foram artigos de anúncio do CDS, cujo nome nunca foi dito,
apenas publicando uma nova visão do país e da política
O
último artigo, publicado na tarde do dia em que o CDS foi apresentado, faz-nos
pensar que quem o leu teria ouvido pela rádio o aparecimento do CDS. E teve no jornal
um explicador complementar, que discorria (o Adelino) sobre «o Governo, antes», «o Governo, agora» e «o Governo, depois»; e, aqui
chegado, difundia o seu pensamento sobre «as
ideologias históricas», questionava os partidos existentes – que todos
seguiam modos de pensamento socialista – e, olhando à evolução da realidade da
Europa e do mundo, propunha a nova plataforma: o centrismo. Enunciou: «Uma base doutrinária mais ampla – de raiz
acentuadamente personalista – e, por isso, bem mais rica e complexa, passou a
fecundar e a legitimar os programas políticos, em contraste com situações
anteriores, sobretudo na Europa continental.»
A
seguir, explicava: «O centrismo que não recusa entrar em processo
dialéctico com a ideologia – antes o defendendo como meio de vitalização
política; o centrismo que não é ideologia, mas uma plataforma
aberta às ideologias que rejeitam qualquer forma de transpersonalismo; o
centrismo que é vocação de governo em função harmónica dos fins a alcançar pela
sociedade; o centrismo que não se condiciona por uma receita dogmática ou
paradogmática no plano dos meios a utilizar com vista à realização daqueles
objectivos – tal é o nome comum que pode ser dado às várias expressões
políticas que governam a Europa democrática ocidental.»
E,
concluía: «Esse
centrismo que é, enfim, um contraste fecundo e colaborante entre o
centro-direita e o centro-esquerda, onde está, em Portugal? Quem o interpreta?
Quem o propõe como atitude fundamental de governo? Eis um enorme espaço
político que, apesar de tudo, corria vago, em termos de instituições
partidárias, com genuína expressão popular. Sem ambiguidades, com clareza, urge
preenchê-lo.» Quem o vinha preencher? Obviamente, o Partido do
Centro Democrático Social, que ele mesmo, Amaro da Costa, junto com Freitas do
Amaral e mais três fundadores, apresentou nesse dia, já na sede do Largo do Caldas
(hoje, com o seu nome: Largo Adelino Amaro da Costa).
FOTO: 19 de Julho de 1974 – Apresentação
pública do CDS. Da esquerda para a direita: Luís Moreno, Valentim Xavier
Pintado, Teresa Forjaz, Diogo Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa
Nesses anos do princípio do CDS, especulou-se algumas
vezes sobre quem escrevera a Declaração
de Princípios do partido. Apontavam-se alguns autores possíveis, mas o segredo nunca foi
quebrado. Nunca ouvi o Adelino reclamar a autoria para si. Naquele
partido, fundado – como costumo dizer –
“em torno de uma escritura” (em vez de atrás de alguém), o anonimato
absoluto da autoria fazia parte dessa função. Se não, poderia vulgarizar-se
como mais um texto de alguém; não um texto colectivo fundador e, como tal,
inspirador e venerado.
Quem
quebrou esse segredo foi Diogo
Freitas do Amaral, num
discurso emocionado feito na primeira homenagem do CDS logo a seguir à morte em
Camarate. Começa
assim:
«Adelino
Amaro da Costa foi fundador do CDS. Foi quem redigiu a nossa Declaração de Princípios.
Foi o primeiro porta-voz da direcção do Partido. Foi o nosso primeiro Secretário-Geral.
Foi o primeiro Vice-Presidente do CDS. Foi o primeiro Presidente do nosso Grupo
Parlamentar na Assembleia da República. Foi o primeiro Deputado do CDS a
receber o título de melhor parlamentar do ano. Foi o principal redactor dos
textos oficiais emitidos pelo Conselho Nacional, pela Comissão Política e pela
direcção do CDS. Foi o fundador do IDL. Foi o principal estratega da AD. Foi o
primeiro civil a exercer as funções de Ministro da Defesa Nacional depois do 25
de Abril. Quis o destino que fosse ele também o primeiro, de entre nós a partir
para sempre.»
Viajando
de novo até à Declaração de Princípios do CDS,
divulgada em 19 de Julho de 1974, não é difícil perceber, ali, as respostas ao
diálogo que se desvenda nos três artigos anunciadores e, em especial, à bateria
de perguntas do último texto de Amaro da Costa no «Diário Popular”.
O
CDS apresentou-se assim oficialmente:
«(…)
este partido saúda as várias organizações partidárias ou cívicas já lançadas,
manifestando-se disposto a um diálogo fecundo com todas elas, e declara-se
aberto à desejável colaboração com as que, sinceramente identificadas com o 25 de
Abril, se proponham construir para Portugal um futuro de paz, liberdade e
democracia social, no âmbito da plataforma centrista.» E prosseguiu em cinco
pontos capitais:
«O
C.D.S. representa, em primeiro lugar, os portugueses que estão dispostos a
lutar pela consagração, em Portugal, do humanismo personalista, sustentando a
necessidade imperiosa de se concretizarem, na nossa vida colectiva, as
exigências do progresso, em todas as suas formas. (…)
O
C.D.S. representa, simultaneamente, todos os portugueses que desejam para o
nosso Pais um sistema democrático de vida capaz de conduzir à redução acelerada
das desigualdades sociais existentes, a um rápido progresso económico e social
e a uma ampla e efectiva participação de cada um nas diferentes manifestações da
nossa vida colectiva. (…)
O
C.D.S. representa, também, todos os portugueses que defendem uma nova concepção
da iniciativa privada, com base no
aprofundamento da solidariedade nacional e da fraternidade social. (…)
O
C.D.S. representa, também, todos os portugueses que desejem construir, na
dignidade, a paz dos territórios africanos e, na cooperação, uma nova posição
de Portugal no Mundo. (…)
o
C.D.S. afirma a sua adesão ao carácter personalista do 25 de Abril.»
É
sem dúvida o espírito e a mão de Adelino Amaro da Costa, como aconteceu tantas
vezes na vida do CDS e da Aliança Democrática (a AD). Um texto muito
amadurecido e revisto com outros, ao longo de dias, nomeadamente com Freitas
do Amaral, até se
estabilizar como a Declaração instituidora, subscrita pelas quatro dezenas de
fundadores.
2 O mais à direita. E a travessia do
PREC fora da carruagem
A
circunstância sonhada para o desenvolvimento
do CDS – a que existia quando surgiu – esfumou-se rapidamente com o tropel da
revolução. Nessa altura, com excepção do PCP, não havia
propriamente partidos políticos, mas a intenção de partidos. E todos, incluindo
o PCP, careciam de legalização junto do Supremo Tribunal de Justiça. Tinham surgido, nesses primeiros meses a seguir ao
25 de Abril, alguns partidos que se situavam à direita do CDS: o MPP (Movimento Popular Português), o PDC (Partido da
Democracia Cristã), o PSDC (Partido Social-Democrata Cristão), o PL (Partido
Liberal) e o PP (Partido do
Progresso).
Logo
no rescaldo do 28 de Setembro, o MFA ilegalizou o Partido do Progresso e o
Partido Liberal, ao mesmo tempo que MPP e PSDC se esfumaram, por falta de
condições. E, no 11 de Março, foi a vez de o PDC, com quem o CDS tinha
uma coligação pré-eleitoral, ser suspenso.
Isto
fez com que o CDS, em
apenas sete meses, visse completamente alterada a sua circunstância fundadora:
de partido do centro passou a ser o partido mais à direita. Era a posição pouco invejável de ser o pára-choques
do regime, enfrentando a dinâmica de salamização, característica das ditaduras
chamadas “democracias populares”.
O
CDS estava destinado a ser a fatia seguinte do salame a ser cortada pelo
esquerdismo infrene, na próxima oportunidade turbulenta da revolução. Ainda por
cima, o CDS estava fora da carruagem oficial na travessia do PREC: não era um
dos três partidos dos Governos Provisórios, não beneficiando desse perímetro
protector.
O
CDS provou-o em comícios boicotados, no Congresso cercado e interrompido, na
prisão de alguns dirigentes e militantes, em dois assaltos à sede nacional, que
foi vandalizada (4 de Novembro de 1974 e 11 de Março de 1975). Nada disto tinha
a ver com a imaginada placidez centrista e exigia dos dirigentes e militantes
que ficaram, juntaram-se e se levantaram, grande capacidade de luta e de
resistência sem deixar derrapar o pensamento.
Diogo
Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa estiveram lá sempre. E, ainda que Freitas lamentasse intelectualmente,
anos mais tarde, a alteração das circunstâncias que impediu o desabrochar do
seu projecto de partido centrista – “rigorosamente ao centro” –, nenhum
vacilou. Não havia, aliás, tempo sequer para pensar nisso. Era andar: andar,
andar, andar.
As qualidades pessoais do Adelino
sobressaíram: a alegria, o optimismo, o seu modo brincalhão, o ânimo, a
extroversão, a exuberância; e, na Constituinte, primeiro palco parlamentar, a
imaginação, o fulgor da palavra, o prazer do debate, a capacidade de enfrentar,
o jeito e o gosto do diálogo.
3 Oposição e alternativa
É pelo instinto de Amaro da Costa que, logo a seguir ao 11 de Março, o
CDS se proclama da oposição. Não estava previsto. Todo o desenho estratégico,
vindo da lógica dos livros, era o de deixar isso para a fase constitucional do
regime e não para o tempo dos Governos Provisórios e do PREC a acelerar.
Houve o instinto dessa ousadia, no
rescaldo imediato das nacionalizações, condenando-as. E, a partir das eleições
constituintes, com 16 deputados em S. Bento, o CDS sentiu que tinha condições
para esse exercício alternativo de oposição, parlamentar e extraparlamentar,
exprimindo o olhar e a voz do único partido não-socialista da situação.
Havia, porém, as amarras apertadas do
1.º Pacto MFA/Partidos que todos tiveram de assinar, para garantir a realização
das eleições constituintes. Aí, o talento
de Amaro da Costa fez prodígios de linguagem para poder assinar o texto sem
mentir ao coração, o que se tornou uma especialidade do CDS para poder
acompanhar a revolução sem se confundir com ela, nem por ela ser tragado. Éramos
a favor de uma “sociedade sem classes”, mas sendo todos proprietários, não
todos proletários – utopia
por utopia, antes a boa do que a miserável.
Estávamos na “via original para um socialismo português”, porque, se
era “original”, não era nenhuma das vias horrorosas que já se conheciam
(soviética, chinesa, cubana, vietnamita, coreana) e, se era um “socialismo
português”, era outra coisa que teria de se ver. O CDS ia no comboio, mas a reclamar e a objectar.
Era
preciso ir tão longe quanto necessário, até ao momento decisivo. No dia 21 de Novembro de 1975, Amaro
da Costa faz um discurso vigoroso
na Assembleia Constituinte, perante o facto de o Governo Pinheiro de Azevedo ter declarado entrar em greve, uma originalidade da
revolução socialista em que patinávamos.
Às tantas, interpela: «O Governo decidiu suspender as suas actividades
porque não tinha garantias para governar. Pode discutir-se o método adoptado
pelo Governo; não se pode discutir a intenção. O Governo pretende ser
respeitado; é justa a sua pretensão. O Governo exige do Presidente da República
e do Conselho da Revolução a autoridade que lhe falta; é legítima a sua
exigência. O VI Governo tem dúvidas sobre a determinação do Conselho da
Revolução em o apoiar? Obrigue, como obrigou o Conselho da Revolução a
definir-se. Chegou a hora da clarificação. Os portugueses não podem continuar a
viver em estado de crise permanente. É preciso saber, de uma vez por todas,
quem está pela democracia e quem está contra a democracia.»
Quatro
dias depois, era o 25 de Novembro.
E,
a 10 de Dezembro, lá estava de
novo Amaro da Costa, no plenário de S. Bento, a reclamar em nome do CDS a
necessária revisão da «Plataforma de Acordo Constitucional celebrada entre o MFA
e alguns partidos políticos» (o 1.º Pacto MFA/Partidos): «Os objectivos da
nossa luta centram-se em torno da defesa da revolução democrática e afastam-se,
claramente, da revolução socialista militar. Porque, para nós, o 25 de Abril
foi, é e continua a ser uma revolução democrática. Para consolidar a Revolução será
necessário: estabilizar a democracia; dinamizar a
democracia; optimizar a democracia.»
Viria o 2.º Pacto MFA/Partidos, que eliminou as
exigências mais gravosas contra a democracia. E a Assembleia Constituinte
concluiria o seu trabalho a 2 de Abril. O CDS, tendo contribuído para todo o
conteúdo democrático da Constituição, votou contra o texto final, em virtude do excesso de carga ideológica socialista.
Assim voltou a marcar a ideia de alternativa que vinha afirmando.
Em 8 de Fevereiro de 1976, num comício em que o CDS encheu a Praça do Campo
Pequeno (bancadas e arena) para os apoiantes ouvirem Maria Laura Pinheiro, Basílio Horta, Amaro da Costa,
Galvão de Melo e Freitas do Amaral, o Adelino marcou bem a ideia: «Somos oposição, somos reformistas, somos alternativa.»
Estava dado o tom da campanha eleitoral para a primeira Assembleia da
República. Seria feita precisamente sob o lema “Alternativa 76”, obtendo
o prémio de o CDS subir de 7,5% para 16% e de 16 para 42 deputados. Nada
mau. A oposição do CDS seguia um estilo que Amaro da Costa, como líder
parlamentar, afinou na I Legislatura. Fê-lo, de forma particularmente clara,
em 15 de Abril de 1977,
numa declaração política em S. Bento:
«O CDS lançou, em Portugal, o conceito de
oposição civilizada. Num País habituado ao radicalismo e à intolerância, essa
não era uma noção fácil de compreender e aceitar. Mas fez o seu caminho. E hoje
não é só o CDS que afirma a sua recusa em enveredar pelas vias da oposição
sistemática. Os portugueses entenderam bem que a batalha da recuperação
económica não se compadecia com ter o coração político do País batendo a um
ritmo de 120 pulsações por minuto, sob pena de colapso cardíaco. Era necessário
um período de acalmia política capaz de permitir o debate e o lançamento das
medidas indispensáveis à viabilização da nossa depauperada economia. E esse
período, em certa medida, verificou-se nos últimos meses. Mesmo as forças
antidemocráticas ou mais interessadas na conquista do Poder por via não
democrática viram-se obrigadas a refrear os seus impulsos desestabilizadores.
Isso aconteceu graças, em grande parte, aos esforços levados a cabo pelo CDS no
sentido de imprimir à acção oposicionista um tom de realismo, moderação e
equilíbrio.»
E,
de seguida, permitindo ver que era mesmo oposição, disparou 35 perguntas ao
Governo de Mário Soares (PS sozinho), sobre os mais variados sectores, que
teriam de ser respondidas numa sessão especial marcada nos termos do Regimento
de então.
O
prestígio do CDS crescia com intervenções destas.
4. A caminho da maioria: de passagem
pelo PS, chegar à AD
A
preocupação seguinte do CDS era continuar “fora
da carruagem”, como durante o tempo dos Governos Provisórios. Objectivamente, o voto contra a Constituição agravava
esse risco porque podia contribuir para a estigmatização, a segregação e a
marginalização. Aí, Amaro da
Costa contribuiu
decisivamente em dois movimentos estratégicos fundamentais.
Um
foi bem pensado: a maioria
presidencial. Ramalho
Eanes, que emergira com o 25 de Novembro, foi rapidamente lançado como o
candidato à Presidência da República com apoio das forças democráticas: PS, PSD
e CDS. Da parte do CDS, era um apoio sentido, genuíno, verdadeiro. Gostávamos genuinamente de Ramalho Eanes e tínhamos
muita gratidão por aquilo que representava. Mas a circunstância política
era também propícia para colocar o CDS “dentro da carruagem” e foi isso que
Amaro da Costa fez, insistentemente, em muitos textos que escreveu e
declarações que proferiu, cunhando e consolidando a expressão “maioria
presidencial” como novo conceito político incontornável.
O outro surgiu por acaso: o Governo
PS/CDS. Com a
queda do Governo PS sozinho, produziu-se um vazio difícil de preencher. O CDS
tinha os deputados suficientes para resolver a questão e as direcções do PS e do CDS tinham boas relações pessoais e políticas, consolidadas nos
momentos mais difíceis do PREC. Não havia outro momento como este para situar
de vez o CDS como “partido de Governo”. Para mais, o país vivia a primeira
crise muito séria, com o FMI à porta. Havia também imperativos de
interesse nacional que empurravam essa solução.
Os preconceitos adversos eram tantos, à esquerda e à
direita, que a coisa não era como, depois, toda a gente passou a dizer:
“governo PS/CDS”. A
fórmula oficialmente chamava-se “Governo PS com personalidades” – como que a
significar que os ministros e secretários de Estado do CDS não eram do partido,
mas “personalidades” avulsas. E também não se dizia uma coligação, mas apenas
um “acordo de incidência parlamentar” entre PS e CDS. Adelino Amaro da Costa participou activamente e, às vezes, conduziu a
navegação entre rochedos para conseguir concluir este ousado acordo político.
Era também inédito. Inédito para trás e “inédito” para a frente, pois nunca
mais se repetiu. Mas chegou a haver grandes projecções sobre o efeito que
teria no sistema partidário nascente, caso a experiência durasse até ao fim da
legislatura. A ideia no CDS mais optimista era de que permitiria suplantar o
PSD e conferir ao CDS a liderança ao centro e à direita. Era a “teoria
das bossas do camelo”, que levaria PS e CDS a serem os altos
montes do sistema e o PSD a afundar-se no vale entre os dois.
A
realidade foi ao contrário: o Governo durou seis meses. O PSD e forças sociais independentes, agindo na
sociedade entre PS e CDS, foram criando muita insatisfação e alguns dossiers tornaram
a experiência insustentável para o CDS. Foi sobretudo o caso da política
agrícola titubeante (ou comprometida com o PCP) do ministro socialista Luís
Saias, para mais na área politicamente explosiva da Reforma Agrária.
O
Governo caiu. Tanto era a
última solução naquele quadro parlamentar, que, a seguir, não houve outra. Teve
de se entrar na fase dos
Governos de iniciativa presidencial.
Apesar
de algum criticismo interno, forte, o CDS não perdeu nada; antes ganhou muito
em termos de operabilidade política. O partido “fora da carruagem”,
pára-choques do regime, galgou para o centro do terreno. Com a maioria
presidencial e aquela breve passagem pelo governo, passou a contar e até a
poder conduzir o jogo estratégico. Suavemente. Discretamente.
Pouco depois, no final de 1978, é o CDS
que convida PSD e PPM para o que se chamou “Convergência Democrática”: encontros regulares tripartidos entre os três para
análise da situação e ponderação de formas de cooperação pontual. Onde é que,
um ano antes apenas, o CDS podia tomar esta iniciativa e vê-la correspondida?
Nunca. A praça do futuro estava assim desenhada. Faltava ainda saber se era só
conversa, ou se ia haver avenida. Houve. A avenida foi a Aliança Democrática (AD), traçada a partir da crise
do governo Mota Pinto, a meio de 1979, e da iminência do Governo Pintasilgo.
Voltou-se àquele quadro tripartido (PSD/CDS/PPM), mas agora num propósito consequente: listas
conjuntas para a Assembleia da República, para vencer a maioria de esquerda e,
como Sá Carneiro apontava, quebrar finalmente o “impasse”.
Sá Carneiro foi aquele que depressa o entendeu dentro
do PSD; e, por isso, não teve dificuldade em liderar o conjunto, mas também em
levar a sua avante
dentro do seu partido. Foi um momento extraordinário de viragem:
Forte mobilização popular, com domínio
claro nas ruas; Vitória com maioria absoluta (curta) de deputados, nas
intercalares de 2 de Dezembro; Vitória esmagadora nas autárquicas de 16 de
Dezembro; Nova vitória com maioria absoluta (folgada), nas legislativas de 5 de
Outubro de 1980, para a II Legislatura. Melhor
era impossível.
Na
origem de tudo, estavam as excelentes relações pessoais e políticas entre os
três líderes da AD e também entre Sá Carneiro e Amaro da Costa, que redigia
muitos dos textos fundamentais, como foi o caso do Manifesto Eleitoral da AD,
para as legislativas de Outubro.
FOTO: Amaro da Costa e Sá Carneiro, lado a lado
num comício da AD
5 Freitas e
Adelino: um tandem perfeito e constante
Além
da qualidade dos dirigentes e do seu geral espírito generoso, o desempenho
excepcional do CDS original beneficiou muito da fortíssima relação entre Freitas do Amaral e Amaro da
Costa. Ambos muito inteligentes, mas
diferentes. Diogo era um sobretudo um dedutivo, racional, cartesiano,
apreciador da coerência, da harmonia, do sistema. Adelino era um intuitivo, com grande instinto para as saídas
difíceis, forte imaginação, muito dotado de inteligência emocional. Diogo era um
homem mais fechado, tímido. Adelino era extrovertido, explosivo, vulcânico.
Tinham
uma relação de absoluta confiança entre eles. Algumas vezes a intriga política
desenvolvia-se da forma habitual. Uns, iam junto de Freitas do Amaral
dizer-lhe: “Sabe, Diogo, você é um homem sério, um professor, uma pessoa que se
admira e se segue. Mas tem de substituir o Adelino, sempre com aqueles jogos,
aquelas graças. E é muito à esquerda. Um dia, o Diogo ainda perde o CDS por
causa dele. Ele não faz por mal, mas não se ajusta ao nosso partido.” E, outras
vezes, vinham os mesmos dizer a Amaro da Costa: “Adelino, você é formidável. Um
deputado fora-de-série, um orador notável. Mas tem de afastar o Diogo e tomar o
lugar dele. Ele é distante, um antipático. Se não temos cuidado, ainda nos tira
o eleitorado. Você é que é.”
Era
uma intriga escusada com aqueles dois. Cada um dizia “pois” e continuava tudo
na mesma. Imagino que, às vezes, se rissem os dois com as intrigas cruzadas.
Uma frase das mais citadas de Amaro da Costa era: «O “adelinismo”? Que disparate!
Isso é uma invenção das pessoas que me não conhecem.»
Uma
vez, Amaro da Costa desenvolveu-se a explicar o tema de ser um “n.º 2” na
política e como o seu papel era fundamental e, por vezes, liderante. Sabia ser
o n.º 2. Gostava muito de o ser, porque o líder era o seu n.º 1, que ele escolhera.
Sabia que o líder tinha muita qualidade, tinha o pensamento com que ele próprio
concordava, tinha qualidades humanas que ele reconhecia e dava-lhe o espaço
necessário para imaginar, para arquitectar, para preparar, para construir; e,
depois, também o espaço para explicar, para sustentar, para exaltar. O Adelino
não queria ser outra coisa que não n.º 2 e resistia facilmente ao veneno da
lisonja. Definira e sabia qual era o seu papel; e sabia também que era desse
papel que o CDS precisava.
Disse-me que, um dia, iria escrever um
artigo sobre o “n.º 2” na política. Nunca o fez, não calhou o tempo de o fazer.
Outro artigo que me disse que ia ter de escrever era sobre a Igreja em
Portugal. Comentou-me: “As pessoas, Zé, não sabem quanto devem à Igreja em Portugal. Tenho de
escrever, tenho de escrever.” Outro artigo
para que não teve tempo.
Todos viríamos a experimentar a razão de Adelino Amaro
da Costa quanto ao “n.º
2”: Camarate foi muito mais duro para o CDS e para Freitas
do Amaral do que para o PSD. É muito mais difícil substituir um n.º 2 do que um
n.º 1. Quando é o líder que falta, o partido, mais ano, menos ano, acaba por
encontrar outro, com mais ou menos bulha – e tudo recomeça. Mas, quando é um
“vice”, é muito mais difícil, porque, além de encontrar alguém talentoso, é
preciso que esse alguém tenha, ao mesmo tempo, a confiança mútua com o líder e
a confiança, o apoio e a admiração das bases. É muito difícil. E pode ser
impossível. No caso do Adelino, foi impossível.
Exausto
e descontente, Freitas do
Amaral viria a
sair da liderança do CDS no fim de 1982.
Reencontrou-se consigo mesmo num novo papel de homem só – o candidato
presidencial do “Prá Frente Portugal”, o melhor Freitas de sempre. Mas, a
seguir, retomando o partido ou como independente, as coisas nunca voltaram a
fazer sentido, durável e longínquo.
6. O
democrata-cristão todo-o-terreno
Amaro
da Costa era um democrata-cristão nato.
Não o afirmava, porque, embora sendo essa a substância – ou a raiz da substância
–, não era essa a linha de afirmação do partido. A linha de afirmação era o
personalismo ou humanismo personalista. Era o que constava da Declaração de
Princípios e era isso que enchia os discursos e destes transbordava.
Mas,
com o curso do tempo, a classificação democrata-cristã – que sempre
constou nos Estatutos, desde o célebre Congresso do Palácio de Cristal –
colou-se naturalmente ao CDS e à generalidade dos dirigentes. As pessoas
percebiam, aliás, mais facilmente o que era democracia-cristã do que
personalismo. E o relacionamento internacional do CDS foi determinante, sendo
essa a família em que depressa se integrou com extraordinário sucesso,
graças àquela dupla Freitas/Adelino e ao prestígio que rapidamente conquistaram
em toda a Europa.
O
Adelino era um cristão comprometido, consciente das responsabilidades dos
cristãos na política e, em geral, na cidade. Seguia
outra prática que lhe era habitual: não ia a um distrito em trabalho, em visita
política, que não pedisse para ser recebido na diocese e aí ir trocar uns dedos
de conversa com o Bispo ou Arcepispo. Lia as Encíclicas e outros textos
papais, assim como as principais orientações pastorais dos bispos. Fazia-o para si, mas procurava reflecti-lo na sua acção política. Gostava
de ler esses documentos, mas não me lembro de o ouvir citá-los, isto é, não
gostava de instrumentalizar. Usava a consciência dentro de si, não na lapela.
Havia um tema predilecto da intervenção de Amaro da
Costa que podemos
atribuir indistintamente ao referente centrista, ao democrata-cristão e ao
personalista – ele tinha todos estes referentes e não são muito diferentes
entre si. Era o tema da moderação, que afirmou muitas vezes como
um dos valores políticos constituintes do CDS e nada tem a ver com firmeza ou
moleza.
No
dia a seguir a tomar posse o Governo da AD, foi a este tema que dedicou um
artigo no semanário “O Jornal” – “Moderação e Conciliação”, 4. jan.1980. Cito o
princípio:
«A moderação, em política, é um estilo e não uma máscara ou uma linguagem.
Pressupõe saber ouvir
sem dogmatismo nem preconceito e saber falar sem retóricas nem demagogia. Exige
tratar o real como um dado objectivo da corrente histórica e não como um
elemento mais ou menos afim da subjectividade de quem o encara. Implica uma
séria consideração das relações de força sociais e culturais em presença ou em
conflito, mais do que a simples análise dos jogos de poder entre as
superestruturas políticas. Impõe o reformismo e rejeita o revolucionarismo.
Serve-se da mudança para evitar a ruptura.
Pode-se ser moderado na esquerda ou na
direita, porque a moderação é um modo de estar na política. E sem moderação não
há democracia que sobreviva. (…) Onde estamos hoje, em Portugal?»
Via-se, quando falava, que respirava
os longos ensinamentos de um século de democracia-cristã, nos valores e
princípios que transmitia. Era também,
por vezes, um craque
surpreendente. A DCI, a democracia-cristã
italiana, era, na altura, uma das grandes estrelas da política
europeia e o Adelino, que os conheceu na UEDC, tornou-se um dos seus heróis. Aconteceu ir espreitar uma campanha eleitoral em
Itália e desafiaram-no a discursar num comício. O que ele logo aceitou e
fez, com brilho e graça, em italiano e tudo. Nunca mais quiseram outra
coisa: não havia eleições em Itália que não convidassem Amaro da Costa para
ir fazer dois ou três comícios.
Aplicava a esta comunicação as
técnicas parlamentares em que era exímio. A
primeira entrevista que dá, a seguir a tomar posse como ministro da Defesa Nacional do Governo da AD, foi, em 9 de Janeiro de 1980, ao “Povo Livre”,
órgão oficial do PSD. É muito interessante, versando sobre os mais variados
assuntos. Tal como o artigo que citei há pouco, está publicada, na íntegra, no
livro “Escritos de Governo”, de Adelino Amaro da Costa, numa colecção póstuma
organizada, em edição do IDL, pelo Comandante Manuel Pinto Machado, que foi o
seu adjunto militar no gabinete de ministro.
A
directora era Helena Roseta, que lhe fez a entrevista. Cito da entrevista uma
parte bem engraçada do diálogo sobre uma parte recente do seu passado, que
abandonara ao ir para o Governo:
«HR –
As pessoas habituaram-se a ver em si, para além das suas qualidades e do lugar
que ocupa na liderança do CDS, um dos melhores, senão o mais brilhante
parlamentar da anterior Assembleia da República. (…)
AAC – A figura de um parlamentar
identifica-se perante a opinião pública com a de um político puro, isto é, com
a combinação de três profissões: actor, jornalista e jogador de futebol. HR
– Tenho de lhe perguntar, já que tem
qualidades reconhecidas de actor e de jornalista, se joga futebol… AAC
– Joguei râguebi e futebol. Um político
tem que ser actor, porque tem de interpretar um papel que os eleitores lhe
atribuem; jornalista, porque tem de captar as correntes da opinião pública e
conhecer os factos em relação aos quais tem de intervir. Mas também não lhe
basta estar diletantemente a analisar os factos, ou a interpretar papéis. Tem
de servir valores e pontos de vista daqueles que o elegeram, tem de chutar à
baliza e marcar golos. Esta é a imagem do parlamentar.»
Uma fotografia de um dos dias mais
festejados no Caldas: o dia em que Amaro da Costa foi apresentar a Manucha à
sede do CDS
7A Manucha que chegou à vida do Adelino
Em
1979, aconteceu ao Adelino algo de inesperado para todos. Apaixonou-se.
Ele era um homem exuberantemente apaixonado pela vida, mas por alguém… não
conhecíamos. Foi a Manucha: Maria Manuela
Simões Vaz Pires, nascida em Agosto de 1946, em Lourenço Marques.
No
CDS, face à intensidade hiper-full-time com que Amaro da Costa vivia a política
e, em especial, o partido, sempre disponível para mais uma sessão, mais uma
reunião, para mais uns dedos de conversa, era comum as pessoas comentarem que
ele podia fazer isso, porque “não tem família”. Queriam dizer que ele era
solteiro, não tendo de repartir o dia-a-dia. O Adelino dava a casca quando lhe
chegava aos ouvidos este comentário. Não ficava zangado, que não era
temperamento para isso. Mas desconsolado com a ignorância emocional de tanta
gente. Conhecia esse cometário como normal – e não só com ele –, mas
detestava-o.
Uma
noite, em 1978, num concelho perto de Viseu, num fim-de-semana de Conselho
Nacional e após dia intenso de actividade partidária, um dirigente local
convidou dirigentes nacionais e locais para uns petiscos em casa dele. Era um
barracão rural adaptado a adega para patuscadas com amigos. Bebeu-se vinho,
comeu-se pão e enchidos e umas alheiras pequenas de várias qualidades, de caça
e outras, magníficas.
O
Adelino, às tantas, começou a falar e todos se calaram para ouvir. Falou da
solidão da política e, sem falar de si, da solidão dele também. Não era uma
queixa, nem um lamento, apenas uma narrativa. As pessoas nunca tinham pensado
nisso. Vi, naquela adega, homens mais velhos, bastante mais velhos que ele,
muitos a uma vez só, de lágrima nos olhos, enquanto o escutavam. Só uma vez
se referiu a si, para citar as pessoas que diziam que ele não tinha família.
Não falava com mágoa, sorria. Falou da mãe e do pai, do irmão e da irmã, dos
sobrinhos – a sua família. E falou também da solidão da decisão do político,
tanto mais só quanto mais difícil era a decisão e quanto maior era a
responsabilidade. Depois, para quebrar o peso da fala, contou uma ou duas
histórias engraçadas de decisões tomadas com Freitas do Amaral, a sala riu em
gargalhadas e todos romperam em aplausos, terminando em beleza o serão.
A
Manucha era uma pessoa adorável, de sorriso terno, que facilmente conquistou o
campo exigente de amigos e seguidores do Adelino. Dela naturalmente nos fazíamos amigos também. Era uma
mulher muito inteligente, doutorada em Química e professora universitária na
Faculdade de Ciências. Não teve dificuldade em concluir com brilho um tirocínio
em actividade política.
A
Manucha estava completamente apaixonada pelo Adelino. O Adelino estava
completamente apaixonado pela Manucha. Eram uma companhia tão perfeita um do
outro que, ao fim de uns meses, era difícil lembramo-nos como alguma vez tinha
sido diferente. Casaram em Palmela, em 3 de Novembro de 1979. Morreram
em Camarate, em 4 de Dezembro de 1980. Não sendo, como disse, dado a
confabulações cabalísticas, isto fez-me sempre muita impressão: o casamento
deles durou exactamente um ano, um mês e um dia.
Estão
ambos sepultados num mausoléu de mármore preto, exclusivo dos dois, que amigos
fizeram construir em S. Martinho das Amoreiras, com recurso a uma subscrição
pública. Numa das faces do mausoléu, está uma frase que escolhi, pensando na
vida que conheci ao Adelino e, naquele local, pensando também na Manucha, que
morreu com ele, ao seu lado.
A
frase é de um diálogo de Moisés com Deus, no monte onde recebeu as Tábuas da
Lei. Moisés está inseguro, com receio de não ser capaz, medo de falhar o que
Deus pede, temendo não estar à altura. E Deus responde-lhe de forma poderosa e
total: «A minha face irá diante de ti e dar-te-ei descanso.»
Acredito
que o Adelino, católico profundo, várias vezes se confrontou, na solidão
do quarto, ou de um monte alto, ou de uma praia vazia, sobre a dúvida no
seu caminho. E, para ele conseguir ter a certeza que a todos sempre nos
transmitiu, com aquele sorriso largo e resoluto tom de voz, é porque várias
vezes ouviu, dentro de si, na fonte de tudo, aquela frase, por aquelas ou
outras palavras.«A minha face irá diante de ti e dar-te-ei descanso.»
É
impossível saber, calcular ou sequer imaginar como seriam as coisas hoje, se
aquela tragédia de Camarate não tivesse acontecido. Nestes 40 anos em que não
tivemos Amaro da Costa – e todos os que morreram com ele –, já passou tanta
água debaixo das pontes e 40 voltas inteiras a Terra deu ao Sol, que ninguém
pode, com juízo, deitar-se a adivinhar como seria tudo.
Só
podemos ter duas certezas. Uma: seria certamente melhor. Outra: com o Adelino,
seria seguramente muito divertido.O último comício de Amaro da Costa, no Porto, em 3 de
Dezembro de 1980. Voou para Lisboa na madrugada a seguir. Partiam de novo para
o Porto, na noite de dia 4, para novo comício de campanha.
HISTÓRIA CULTURA CDS-PP POLÍTICA
COMENTÁRIOS:
Manuel Pestana: Excelente
artigo. Xavier
Goncalves: JRC. Grato pelo belo texto, sobre um Belo
concidadão. Ana Kosta:
Naquele malfadado dia, morreu a nata da
política e da cultura portuguesa. Nunca mais houve políticos como Sá Carneiro e
Amaro da Costa (PSD e CDS como partidos credíveis desapareceram nesse dia), e o
desaparecimento de Snu Abecassis foi uma perda gigantesca para o mundo
editorial português, que nunca mais foi substituída. Maria Nunes: Bonita homenagem.
José Pinto de Sá: Excelente texto!
Leitor Registado: Adelino Amaro da Costa um Homem com H grande! Uma justíssima recordação / homenagem
feita por JRC. NUNO
SILVA: Nem imagina, JRC, quanto
apreciei este seu texto, eu que nesta altura andava pelo outro lado,
naturalmente acompanhando a onda dominante, sem pensar. Hoje, ainda que triste
e um pouco deprimido só de pensar o que então me escapou, não calcula a alegria
que sinto pela recuperação da razão, do equilíbrio e dos seus actores e
autores. Obrigado. José
Ribeiro: Estive nesse grande comício de
Fevereiro de 1976 no Campo Pequeno. Se bem me lembro foi o primeiro em que
pusemos em debandada a contra manifestação da esquerdalha radical! Pode parecer
pouco mas naqueles tempos foi uma grande vitória! Infelizmente parece que
teremos de voltar à rua! Não tenho qualquer dúvida de que o país estaria bem
melhor com Adelino Amaro da Costa e Francisco Sá Carneiro. José
Ribeiro e Castro > José Ribeiro: Exactamente. Foi isso mesmo.
Foi um grandioso comício, dentro da Praça e cá fora também. josé
maria: O CDS vale hoje
1%.
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