terça-feira, 30 de abril de 2019

E todos - menos um - ignoraram a Catalunha



Julgo que a Catalunha deve estar no pensamento de todos, mas ninguém se atreve, por enquanto, a sequer alvitrar, excepto JMT com indiferença, parece-me. Mas agora é que a Catalunha vai ao ar e a Espanha não será mais aquela. Dos mapas. E da História.
I -OPINIÃO: As eleições espanholas e a estabilidade
Podemos estar a assistir ao regresso da política na verdadeira acepção da palavra, na arte de realizar compromissos com forças que se enquadram num dado campo político – ideológico.
DOMINGOS LOPES
PÚBLICO, 29 DE ABRIL DE 2019, 22:12
Em Espanha os resultados eleitorais das eleições legislativas de vinte e oito de abril apresentam um horizonte com uma nova paisagem política.
Na verdade, a rotatividade das maiorias absolutas entre o PSOE e o PP finou. Os eleitores, numa grande afirmação cívica, deram uma maioria relativa ao PSOE e uma maioria absoluta ao PSOE, ao Podemos e aos partidos representativos das autonomias e independentistas.
O PP, o Cidadãos e o VOX escolheram como eixo político colocar o PSOE num cordão sanitário. Falharam redondamente. O campo do PSOE, do Podemos e autonómico reforçou as suas posições.
É interessante que muitas das análises se centram na instabilidade gerada com estes resultados, tentando passar por cima da opção clara dos espanhóis que rejeitaram entregar a qualquer partido o poder de por si só constituir governo. Sendo o povo o soberano escolheu e só há que respeitar essa sua soberania.
Parece claro que as experiências de maiorias absolutas de PP e PSOE conduziram a Espanha a sucessivos e monumentais escândalos de corrupção que abalaram toda a sociedade de modo profundo.
Ao obrigar o PSOE a negociar compromete-o com acordos com outros partidos, impedindo-o de gerir a vida pública a seu bel-prazer.
A estabilidade gerada por uma maioria absoluta foi responsabilizada pelos espanhóis como causa desse clima de um poder quase absoluto com que o PSOE e o PP arrasaram a Espanha, levando ao descrédito do próprio regime, dado o grau de envolvimento de ambos em processos de corrupção e incapacidade de gerar consensos, provavelmente por terem maioria absoluta.
Esta “estabilidade” foi tacitamente rejeitada pelos espanhóis, criando uma nova situação. O PSOE vai ter de assumir compromissos com os partidos à sua esquerda ou à sua direita. A lógica que decorre da queda do governo de Sanchez, os eixos da campanha eleitoral, apontam para um entendimento à esquerda e com os autonomistas.
Um acordo é sempre o resultado de vontades que nele se materializam e podem dar a possibilidade de levar a cabo a legislatura até ao fim, ou seja, com estabilidade.
Falta esperar para ver se o PSOE se compromete desde já com uma saída ou prefere manter uma certa ambiguidade para tentar reforçar a votação nas eleições para o parlamento europeu.
A estabilidade da governação não decorre tout court de uma maioria absoluta, mas de uma política que responda às grandes aspirações dos espanhóis.
O exemplo português é claro. O facto de o PS não ter uma maioria (nem relativa) não impediu de governar os quatro anos e de operar uma certa viragem na política portuguesa, aliás com sucesso.
Podemos estar a assistir ao regresso da política na verdadeira acepção da palavra, na arte de realizar compromissos com forças que se enquadram num dado campo político – ideológico. O que poderá significar o fim de um rotativismo entre duas formações para tudo ficar na mesma.
A democracia é a possibilidade de encontrar saídas reais e diferentes para os impasses que o regime gera. Apresenta-se uma nova possibilidade no nosso vizinho continental. Há saídas para assegurar a estabilidade governativa.

II - A pulverização eleitoral espanhola /premium
OBSERVADOR, 30/4/19
Em Espanha, como em Portugal, o «centro» transformou-se numa pretensa «linha vermelha» que nenhum partido quer atravessar com medo de ser acusado de «direitista» ou de «esquerdista».
Ao contrário do que se poderia supor, no caso de Portugal e Espanha a proximidade geográfica presta-se menos à mútua compreensão do que às seculares confusões geradas pelas rivalidades nacionais e pelas narrativas históricas. Com efeito, a situação a que Espanha chegou ao termo de eleições que já deviam ter tido lugar há tempos, mas às quais o partido socialista espanhol (PSOE) fugira até agora, não é tão diferente da portuguesa como parece. Com excepção, claro, da pressão cisionista de uma parte significativa, embora provavelmente minoritária, da opinião pública catalã, que não nos deve porém obnubilar, pois esta explosão independentista não é apenas local!
Em Espanha, com um sistema eleitoral baseado no método de Hondt mas bastante menos proporcional do que as regras aplicadas em Portugal, as coisas estão de tal modo distorcidas que um deputado custou ao PSOE apenas 60.000 votos em média enquanto ao Ciudadanos (C’s) custou mais de 72.000 votos e ao Podemos quase 90.000, enquanto o novo partido Vox precisou de 110.000, ou seja, praticamente o dobro do PSOE: de tal modo que o Vox necessitou de mais de 2,6 milhões de votos para eleger 24 deputados enquanto os seus inimigos independentistas precisaram apenas de 1,5 milhões para eleger 22. Em suma, um deputado devia ter custado em média cerca de 85.000 votos mas variou dessa maneira que se está a ver…
As fortes discrepâncias que se verificam em Espanha resultam das escolhas consecutivas ao fim da Ditadura, em benefício dos dois grandes partidos que então se formaram e se apoderaram do espaço público até há pouco tempo; pior do que isso, criaram-se desigualdades crescentes que acabaram por estilhaçar o leque partidário em mais de uma dúzia de partidos com representação parlamentar. Quando o partido mais votado tem menos de 29% dos votos e 123 deputados, e os quatro partidos seguintes têm, juntos, o dobro dos votos mas apenas 189 deputados, a única coisa que uma pessoa séria pode fazer é procurar aquilo que o antigo presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso, chama o «centro radical».
O que vem a ser isso? Basicamente, seria a cooperação entre todos os partidos que rejeitam as ideologias extremas, sejam de direita ou de esquerda, as quais sempre se multiplicam com este tipo de fragmentação, acabando por reduzir os partidos políticos, não a agentes da governação conjunta, como seria de desejar, mas sim a redutos cada vez mais pequenos de famílias ideológicas que lutam entre si pelos despojos do Estado nacional ou comunitário! Irão então os partidos procurar identificar aquele «centro radical»? Não!
Em Espanha, como em Portugal e como sucede cada vez mais onde prevalece a fragmentação eleitoral, o «centro» transformou-se numa pretensa «linha vermelha» que nenhum partido quer atravessar com medo de ser acusado de «direitista» ou de «esquerdista». No caso de ontem, já que nenhum partido está perto da maioria parlamentar, o natural seria a aliança dos dois partidos que a própria geografia parlamentar coloca no centro do hemiciclo: o PSOE vencedor precisa de 53 deputados para atingir essa maioria e Ciudadanos – à sua direita no parlamento – tem os suficientes para isso, perfazendo 180. Para cada lado, segundo a geografia eleitoral, ficariam 90 deputados à direita e 80 à esquerda, incluindo populistas, nacionalista e cisionistas. Mas não, repito.
O PSOE diz preferir governar sozinho piscando o olho à esquerda ou à direita, conforme as necessidades, mas na realidade está a preparar-se para se unir à presumível esquerda, exceptuando em princípio os cisionistas catalães. Isso dar-lhe-á os 42 populistas do Podemos e mais alguns deputados até chegar, penosamente, a 175 votos que ainda não fazem uma maioria para passar a legislação e que só por oportunismo é que o Podemos poderá – estou a jogar com as palavras – engolir.
Quando vigoram, simultaneamente, a fragmentação partidária e a ideologia da Esquerda vs Direita está encontrada a receita para a paralisia das políticas económico-financeiras e das políticas públicas, desde o envelhecimento, a saúde e a segurança social até ao atoleiro em que caiu na maioria dos países a escola da pré-primária à pós-graduada. Não é para outra coisa que se preparam, infelizmente, os partidos saídos das eleições de ontem em Espanha. Entre nós, onde as eleições legislativas já estão ao virar da porta, o actual partido central – o PS – prepara-se para imitar o PSOE (ou este imitar aquele) e tentar governar sozinho enquanto dá uma mão à esquerda e outra à direita, conforme já anunciou que irá fazer – nada mais, nada menos – no caso da chamada Lei de Bases da Saúde. O oportunismo eleitoral actualmente dominante faz-me lembrar uma imagem televisiva em que o actual primeiro-ministro português, pouco antes das eleições de 2015, confessava ao jornalista que lhe perguntara se iria aliar-se ao PSD: «Ainda se o líder fosse Rui Rio»…
III - OPINIÃO: Espanha, Vox e os benefícios dos extremismos
E se os chamados “extremismos” não fossem necessariamente um ataque à democracia, mas antes uma válvula de escape dos próprios sistemas democráticos?
JOÃO MIGUEL TAVARES
PÚBLICO, 30 de Abril de 2019
Praticamente não há alma que hoje em dia não suspire ou lacrimeje pelo estado deplorável a que chegou a democracia mundial, com o crescimento generalizado daquilo a que se chama “os extremismos”. E logo de seguida vem a lista que todos conhecemos, com Trump à cabeça, seguido de Bolsonaro, e depois Órban, Salvini, Farage, a antiga Frente Nacional ou o Vox, e, à esquerda, Tsipras ou o Podemos. Longe de mim querer impedir o queixume, no qual também participo amiúde, mas gostaria de propor uma interpretação alternativa: e se os chamados “extremismos”, tanto à esquerda como à direita, não fossem necessariamente um ataque à democracia, mas antes uma válvula de escape dos próprios sistemas democráticos, que vai permitindo integrar na sua dinâmica o cada vez mais elevado número de descontentes das sociedades ocidentais?
Se esta minha hipótese valer, então “os extremismos” não são necessariamente uma prova da decadência da democracia no mundo ocidental, mas antes uma prova da sua resiliência, e da sua capacidade de sobreviver às suas próprias convulsões. A minha tese é esta: se os Estados Unidos e o Brasil ultrapassarem a retórica caceteira de Donald Trump e Jair Bolsonaro; se a democracia grega sobreviver aos delírios do Syriza; se a Itália aguentar as investidas de Matteo Salvini; se o Vox ou o Podemos forem integrados pelo sistema político espanhol; se toda esta gente, enfim, for sendo substituída, superada ou simplesmente assimilada em eleições democráticas, então não há grandes razões para chorar pela democracia que se perdeu – pela simples razão de que não se perdeu coisíssima nenhuma.
Significa isto que deveremos tolerar sem suspiros, nem protestos, toda a espécie de radicalismos? Não, não significa nada disso. Aliás, eu não me consigo imaginar a viver sem poder dizer mal do Bloco, do PCP ou do André Ventura. Contudo, existe uma grande diferença entre discordar com veemência de um determinado programa eleitoral ou do discurso demagógico de uma qualquer figura, e questionar a sua legitimidade democrática, ou tratar as pessoas que aderem a essa mensagem como “deploráveis”, para utilizar o vocabulário clintoniano. Essa é a diferença que vai da discordância à diabolização. A primeira é muito útil. A segunda não serve para nada.
Quando olhamos para as eleições espanholas e vemos a votação do Vox, é difícil conceber que a Espanha tenha sido subitamente invadida por 10% de franquistas amantes da ditadura, quando muitos deles são jovens que nasceram já neste milénio. O problema é outro, é identitário, nacionalista e contaminado pela tentativa de independência da Catalunha, como é evidente. Existem, com certeza, linhas vermelhas que devem ser traçadas, mas elas não estão nas opiniões políticas quanto aos touros, à identidade de género ou ao papel dos imigrantes – estão na preservação das instituições democráticas e nos pesos e contrapesos de um regime.
Se um qualquer partido, ou um qualquer político, tiver a tentação de mexer nos alicerces do regime democrático – por exemplo, fortalecendo o poder executivo ou limitando a acção dos tribunais –, aí está a pôr em causa o Estado de Direito, e deve ser combatido por todos os meios. Fora disso, do amor à Venezuela à recusa do imigrante, todas as opiniões devem ser democraticamente admitidas, por muito repugnantes que nos pareçam. A democracia assim o exige. A democracia precisa de opiniões tontas, para que os tontos nunca deixem de ser democratas.
Jornalista

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