quinta-feira, 18 de abril de 2019

"Minuciosa formiga"



João Miguel Tavares lembra a “formiguinha ao trabalho e ao tostão”, imagem viva e enérgica do poema de Alexandre O’Neill, cantado por Amália Rodrigues, que naturalmente se orgulha de ser a cigarra que canta, desleixada mas divinal de harmonia. Vale a pena ouvir:
MINUCIOSA FORMIGA
Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora não querer.
Sim, João Miguel Tavares bem pode esforçar-se, inquieto e irrequieto, cauteloso e previdente, imagem do que poderíamos ser, num esforço de dignificação pelo trabalho e consciência. Como a formiguinha zelosa de bem servir o seu formigueiro – talvez, neste caso da sua crónica sobre os ganhadores, em apoio de Rui Rio, que para todos os efeitos parece um homem honesto e esforçado, embora menos seguro na questão do palavreado. Mas a cigarra Costa – que nada tem a ver com essoutra protagonizada pela divina Amália, canta alto e canta grosso, bem protegido por outras de igual calibre vocálico. Devemos agradecer a João Miguel Tavares o seu esforço, na comédia diária da nossa tragédia. Por vão que ele seja, o esforço..

OPINIÃO; PSD sobe, PS desce, e no fim ganha António Costa
Poderá Rui Rio derrotar António Costa em Outubro? A resposta cínica, mas ao mesmo tempo muito realista, é esta: o que é que isso interessa?
JOÃO MIGUEL TAVARES
PÚBLICO, 16 de Abril de 2019, 1:05
Anda por aí grande entusiasmo à direita com algumas sondagens que dão uma significativa recuperação ao PSD, que depois de já ter estado a mais de 20 pontos do PS (há coisa de dois anos) está agora a apenas sete, segundo os últimos números da Aximage. Há até quem pergunte: poderá Rui Rio derrotar António Costa em Outubro? A resposta cínica, mas ao mesmo tempo muito realista, é esta: o que é que isso interessa? Ainda que derrote, em substância vai dar o mesmo – o destino de Rui Rio nunca será diferente do de Pedro Passos Coelho. Se um cataclismo provocasse o descalabro do PS (coisa em que não acredito), o próximo primeiro-ministro voltaria sempre a ser António Costa, porque nenhuma sondagem dá à direita mais votos do que à esquerda, nem sequer perto disso.
Portanto, bem pode Rui Rio fazer um surpreendente brilharete nas legislativas, turbinado por um bom resultado nas eleições europeias (e aí, sim, acho que Paulo Rangel tem hipóteses de ganhar, graças a essa bela prenda que António Costa deu ao PSD chamada Pedro Marques). Qualquer que seja o resultado, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa lá estarão – ainda que em salas separadas – a dar conta do seu apoio, totalmente disponíveis para uma reedição da “geringonça”.
Não há aqui grande novidade: desde o Verão de 2018 que João Oliveira, líder parlamentar do PCP, admite um novo acordo com o PS, e quem leia o mais recente comunicado do Comité Central encontra lá ampla satisfação com os resultados obtidos nos últimos quatro anos, incluindo um generoso parágrafo com exactamente 3239 caracteres de elogios aos “avanços concretos” conseguidos durante a actual legislatura, graças à “intervenção determinada do PCP”.
Com o Bloco de Esquerda não se passa muito diferente. A Catarina Martins que em 2016 dizia que “todos os dias” se “arrependia da ‘geringonça'” é a mesma que na última convenção do partido, em Novembro do ano passado, dizia que o Bloco será parte de um governo “quando o povo quiser”. E o povo vai certamente querer, se for necessário. A única diferença em relação a 2015 é que Catarina Martins irá exigir, com boas probabilidades, participar numa coligação efectiva de governo, e requisitar algumas pastas ministeriais para distribuir pela sua chafarica.
Mas seja qual for o modelo da “geringonça II”, o certo é que ninguém imagina que Bloco e PCP, em conjunto, caiam abaixo dos 15% nas próximas legislativas, e o mais provável é até que fiquem mais próximos dos 20%. Assim sendo, qualquer resultado do PS em redor dos 30% é suficiente para obter uma maioria de esquerda no Parlamento, que colocará sempre Rui Rio fora do poder. Se as dúvidas sobre quem será o vencedor das próximas legislativas podem até ser legítimas, estar a tentar adivinhar o nome do próximo primeiro-ministro é um exercício espúrio – ele será sempre António Costa, a não ser que o mundo acabe até Outubro. O melhor a que um Rio vencedor minoritário poderá aspirar é constituir um novo governo de 11 dias, à semelhança de Passos Coelho.
Coisa bem diferente, claro está, será entretermo-nos a reflectir sobre a força interna que António Costa teria para liderar uma nova frente de esquerda com maus resultados eleitorais. A força não seria muita, de facto, e a durabilidade do projecto bastante duvidosa. Mas, no que toca ao essencial, razão tem quem anda a lutar por uma frente de direita: sem ela, o PSD não voltará ao poder nos anos mais próximos. Mesmo que continue a ganhar eleições.
Jornalista
COMENTÁRIOS:
Maria Odete Vilas Coutinho, Lisboa 16.04.2019 22:47: Não me pronuncio sobre o mérito da causa, mas estou totalmente convicta de que, durante várias décadas, a direita não voltará a ter maioria no Parlamento português. Daí que, a meu ver, as sondagens e a sua discussão se tenham tornado um dispêndio de tempo pouco útil, ou sequer interessante...
Mario Coimbra, 17.04.2019 08:12: Raramente a direita teve maioria.
ALRB às armas, às armas, pela Pátria lutar, contra os LADRÕES marchar, marchar : Não há eleitorado da geringonça porque a geringonça nunca foi a votos. De qualquer forma está na cara, até ver, que António Costa será primeiro ministro ganhe ou não ganhe as eleições. A sua posição de charneira e a sua manha política assim o permitem. A próxima geringonça vai resultar de negociações do PS com a esquerda assustando a esquerda com uma negociação à direita e de negociações com a direita, assustando a direita com a uma negociação à esquerda. Vai fazer de todos os partidos gato sapato. Eu diria que a direita voltará ao poder só e quando a esquerda levar o país a uma nova bancarrota. Acho que não estou a ser original com esta previsão.
Sérgio Mendes,16.04.2019 09:51: Até que ponto uma sondagem com uma amostragem de 602 entrevistas pode ser fiável num universo de 8 milhões de eleitores? Claramente que são sondagens encomendadas e que servem como única e exclusivamente para moldar a opinião das pessoas. É ridículo a comunicação social divulgar este tipo de sondagens. Uma sondagem para ser considerada válida tem que a amostra representar cerca de 10% do universo (qualquer profissional sabe disso), o que significa que para termos uma breve noção do que se passará em Outubro a sondagem teria de abranger cerca de 800 mil entrevistas, não 602!
Zut Mut, 16.04.2019 10:08: "Uma sondagem para ser considerada válida tem que a amostra representar cerca de 10% do universo (qualquer profissional sabe disso)" Tanto disparate numa mesma frase, em vez de andar por aqui a alardear a sua ignorância vá aprender um pouco de estatística: aqui em Portugal as sondagens relativas a intenção de voto andam normalmente por volta das 1000 amostras, sendo já bastante raras (e desnecessárias) as amostras de dimensão superior a 2000 amostras.
Sérgio Mendes, 16.04.2019 13:36: Acho piada haver tantos doutorados em estatística por aqui. É claro que as sondagens divulgadas são sempre por volta de uma amostragem de 1000 entrevistas, mas não são minimamente fiáveis como alguém afirmou, são sim influenciáveis porque influenciam o sentido de voto. E quanto ao tipo de sondagem que referi (sobre os 10%), apesar de esse tipo de sondagem nunca ser referido ele existe e é praticado em Portugal a nível local nomeadamente a serviço dos órgãos partidários locais (ou acham que a confiança de Rui Rio ao dizer que não ganha sondagens mas sim eleições vem de onde?). São as chamadas sondagens internas dos partidos, depois há as encomendadas. Quem anda no terreno e trabalha na área sabe disso e não quem anda a pesquisar no google.
OldVic, Música do dia: "Todo cambia" (Mercedes Sosa) Liberdade para a Venezuela! 16.04.2019 09:10: Já desisti há muito de prever o que farão os portugueses em actos eleitorais. Para mim, a pergunta mais interessante é saber se Costa prefere associar-se à extrema-esquerda ou ao PSD e/ou CDS num cenário em que ambas as escolhas lhe permitam ter maioria parlamentar. As declarações passadas de Costa sobre o assunto valem o que valem as declarações de Costa: zero.
Rui Ribeiro, Bruxelas 16.04.2019 06:33: Se acontecesse o que JMT descreve, seria a normalidade do sistema semi-presidencial a funcionar. O PSD ganharia força, talvez se tornasse numa oposição mais forte e actuante e com isso só a democracia ganharia.

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