quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Também gostava

 

Da Mafalda e das suas réplicas que esporadicamente li. A minha formação em BD iniciou-se nos anos 60, com Hergé e o seu Tintin, Albert Uderzo e René Goscinny e o seu Astérix, que lia em Francês, nos anos 60 e se ficou por aí. Mas dum modo geral, não tinha estômago para essa literatura cartoonista que começou a aparecer nos próprios livros escolares, como meio de formação e que costumávamos comentar, a minha colega Telma e eu, avessas a essa forma de expressão redutora da palavra escrita, e que cada vez mais libertava o aluno da fadiga de uma leitura mais ampla, favorecida a interpretação pelas imagens e os esgares da B.D. Tintin e Astérix eram outra coisa, histórias de aventuras com humor sadio e não rancoroso nem pedante, sobre o Homem universal que atravessou os tempos. Quanto à Mafalda, apesar de lhe achar graça, também pela expressividade da figura, nunca a vi como menina ingénua, embora o seu mundo infantil fosse malabaristicamente transposto para o universo adulto do seu autor Quino, ou vice-versa. Suponho que estava ali em formação a menina sueca dos novos tempos, Greta Thunberg que, Mafalda sofisticadamente teatral, porque adolescente instigada por saberes e ódios habilmente instilados, desenvolveria o seu raciocínio crítico com muitos esgares dramáticos, e passeando-se pelo mundo, a defender o planeta do seu futuro, contra a agressão adulta ao seu mundo presente.

I -CRÓNICA: Quino. Vou explicar ao Gui porque é que ele se chama Gui

O mundo da Mafalda era tudo menos infantil e muitas coisas sérias se passavam dentro da maior das criações de Quino.

JOÃO MIGUEL TAVARES  PÚBLICO, 30 de Setembro de 2020,

Sobre Quino posso dizer isto: o meu terceiro filho chama-se Guilherme apenas para termos o prazer de o chamar “Gui” (ninguém o conhece por outro nome), tal como o adorável irmão mais novo da Mafalda. Há uma tira em que o pequeno Gui insiste, como todas as crianças, em perguntar “puquê”, “puquê”, “puquê”, e ao fim do quarto “puquê”, Mafalda suspira: “Só um ano e meio e já candidato ao gás lacrimogéneo.” Essa frase recorda-nos que o mundo da Mafalda era tudo menos infantil, e que muitas coisas sérias se passavam dentro da maior das criações de Quino.

Se Mafalda era uma menina que não gostava de sopa, Quino era um artista que não gostava de opressões, injustiças, atentados à liberdade ou autocratas. Era também um artista brilhante e inquieto, que não gostava de se repetir, razão pela qual pôs um ponto final na sua criação mais famosa em 1973, após menos de dez anos de publicação de Mafalda. E nunca mais lhe tocou.

Quino continuou a ser um extraordinário cartoonista e ilustrador, dotado de um traço extremamente virtuoso na sua aparente simplicidade, e com um sentido de humor apurado, que se transformava numa máquina de produzir metáforas visuais, como pode ser atestado nos seus numerosos álbuns de cartoons, que foram sendo publicados em Portugal ao longo dos anos 90 pela D. Quixote, e mais tarde pela Teorema.

A Argentina, vá lá saber-se porquê, é um dos mais prodigiosos albergues de autores de banda desenhada e de ilustração, e Quino era um dos maiores entre os maiores. Neste dia triste, resta-me aproveitar para voltar a explicar ao Gui porque é que ele se chama Gui, modesta forma de insuflar um pouco de vida a quem se foi de vez.

TÓPICOS   CULTURA-ÍPSILON   BANDA DESENHADA

II - CRÓNICA:    Quino, um dos meus

Essa coisa que era a Mafalda vingou pela agudeza das observações, pela fineza do traço e da comunicação, pelo divertimento do humor, sem dúvida, mas também pela identificação imediata com aquelas personagens, que passaram a existir naqueles espaços vazios que os jovens têm para ser ocupados pelos heróis e pelos amigos.

AURÉLIO MOREIRA

PÚBLICO, 30 de Setembro de 2020

Quando eu era pequeno, aí pela Idade do Bronze, e, na minha especialidade, achava que ainda não era ninguém, tive a fortuna de ser visitado, por livros e por brinquedos, por artistas que tiveram artes de me conquistar para sempre na gratidão de me darem o que eu não conhecia, mas sabia que me faltava. Devo ao inventor do Lego um brinquedo com que fazer eu mesmo todos os brinquedos: carros, pistolas, casas, camiões, navios, aviões, labirintos para moscas a que era preciso tirar as asas para que não fizessem batota, até cofres com segredo e “leitores” de cartões perfurados dos primeiros computadores de empresas.

Devo a uma dieta de Lego e de bicicleta a exploração do próximo e do distante e à Enid Blyton, ao Júlio Verne, ao Verbo Juvenil, as sensações de aventuras que a aldeia em que vivia não me dava. Nas passagens pela cidade e quando acabei por me fixar nela, conheci o Hergé e muitos outros, na revista Tintin, que era preciso comprar aos bocados, todas as semanas para não se perder o fio à meada. E perdeu-se. Até se fazer a revelação mágica do “álbum”: uma aventura completa ali. E os álbuns do Edgar Pierre Jacobs, mestre dos mestres.

E então apareceu o Quino, no liceu, emprestado no intervalo das aulas, em livrinhos pequeninos, fininhos, com tiras independentes de história inteira, da Mafalda. Aquilo era outra coisa. Tal como o Tintin tinha sido outra coisa. Tal como os Blake e Mortimer tinham sido outra coisa.

Essa coisa que era a Mafalda vingou pela agudeza das observações, pela fineza do traço e da comunicação, pelo divertimento do humor, sem dúvida, mas também pela identificação imediata com aquelas personagens, que passaram a existir naqueles espaços vazios que os jovens têm para ser ocupados pelos heróis e pelos amigos. Ao grupo de colegas do liceu pude acrescentar – e tantos outros o fizeram – os que não tinha, mas gostaria de ter. E aprendia-se muito. Por exemplo, que a liberdade era pequenina. Por acaso, era, embora eu não soubesse. Mas deu-se logo o 25 de Abril, por esses dias, e eu percebi. Mas o Quino já me tinha avisado. E avisou-me de outras coisas no álbum “Não Me Grite!”, que eu comprei por 200 escudos: a vida nas cidades, o materialismo, a exploração, a ecologia, a solidão.

E em Gente, Bem, Obrigado, e Você?, Quinioterapia e outros, pude confirmar, vezes sem conta, que ele continuava em forma, que continuava lúcido, a ser meu amigo, a partilhar os seus pontos de vista comigo e eu a partilhar dos dele. Em 1984, na agora defunta Livraria Bertrand de 31 de Janeiro, no Porto, onde tanta coisa se passou até fechar, fui dos que entraram na bicha para uma dedicatória e um aperto de mão ao amigo que vivia tão longe e que eu não conhecia, mas que me tinha acompanhado, tal como aos outros meus amigos, nos anos em que nos construímos. Levei-lhe o Não Me Grite!. E aqui está: “Para Aurélio, Quino 84”. Quanto vale? Não é quanto vale no eBay, é no coração… Obrigado, Quino. És um dos meus.

 

NOTAS DA INTERNET:

Quino

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Joaquín Salvador Lavado Tejón Mendoza, 17 de julho de 1932Buenos Aires, 30 de setembro de 2020), mais conhecido como Quino, foi um pensador, historiador gráfico e criador de banda desenhada (história em quadrinhos).

Filho de imigrantes espanhóis da Andaluzia, nasceu em 1932 na província de Mendoza na Argentina. Desde cedo foi chamado pelos familiares pelo apelido com que é conhecido - Quino - para diferenciá-lo do tio homónimo, desenhista, com quem já aos 3 anos de idade aprendeu o gosto pela arte.

Em 1945 perdeu a mãe e em 1948 o pai. No ano seguinte abandonou a Faculdade de Belas Artes com a intenção de se tornar um autor de banda desenhada, e logo vendeu o seu primeiro desenho animado, um anúncio de uma loja de seda. Tentou encontrar trabalho no editorial Buenos Aires, mas não conseguiu. Depois de fazer o serviço militar obrigatório em 1954, estabeleceu-se em Buenos Aires em condições precárias. Por fim, publicou a sua primeira página na revista de humor semanal. Isto é, de logo se seguiram outras editoras: Leoplán, TV Guía, Vea y Lea, Damas y Damitas, Usted, Panorama, Adán, Atlántida, Che, o diário Democracia, entre outros.

Em 1954 começou a publicar regularmente no Rico Tipo e no Tia Vicenta e Dr. Merengue. Logo depois começou a tirar fotos de publicidade. Publicou as suas colecções primeiro no livro "Mundo Quino" em 1963, e logo surgiram algumas encomendas para algumas páginas numa campanha de publicidade encomendada por Mansfield, uma empresa de electrodomésticos. A campanha não chegou a ser realizada pelo que a primeira história de Mafalda foi publicada no Leoplán, e pouco depois passou a ser publicado regularmente no semanário Front Page já que o editor do semanário era um amigo de Quino. Entre 1965 e 1967 foi publicado no jornal (entretanto desaparecido) O Mundo, logo publicou as primeiras colecções de livros, e começou a ser lançado em ItáliaEspanha (onde a censura forçou-o a rotulá-la como "conteúdo para adultos"), Portugal e outros países. Depois de por um fim à Mafalda a 25 de junho de 1973, segundo o próprio por as suas ideias estarem a esgotar-se, Quino mudou-se para Milão, onde continuou a fazer as páginas de humor que lhe caracterizam.

Em 2008, a cidade de Buenos Aires imortalizou-o. Por iniciativa do Museu de Desenho e Ilustração e com curadoria de Mercedes Casanegra, a Buenos Aires empresa Subway realizou dois murais da sua personagem Mafalda, na estação Peru, ou seja na histórica Plaza de Mayo. Isto assegurou o conhecimento do seu trabalho para as gerações futuras. Em 2009, com uma peça original da sua personagem Mafalda, realizado para o jornal El Mundo, na exposição "Bicentenário: 200 Anos de Humor Gráfico" que o Museu de Desenho e Ilustração, realizada em Eduardo Sivori Museu de Buenos Aires, homenageando os mais importantes criadores de Humor Gráfico na Argentina através de sua história. Morreu em 30 de Setembro de 2020, aos 88 anos, de acidente vascular cerebral.

Uma menina questionando o mundo

A obra mais famosa de Quino é a tira cómica Mafalda, publicada entre os anos 1964 e 1973. Editada em tiras nos jornais, Mafalda questionava todos os problemas políticos, de género, e até científicos que afligiam sua alma infantil e, ao mesmo tempo, refletia o conflito que as pessoas da época enfrentavam, sobretudo com a progressiva mudança dos costumes e a já incipiente introdução da tecnologia no cotidiano.

Um bom exemplo é a tira onde Mafalda ouve no rádio: "O Papa fez um chamado à paz" E, com sua ingenuidade infantil, responde ao aparelho: "E deu ocupado como sempre, não é?" Apesar de ter sido interrompida ainda no começo dos anos 1970, Mafalda possui uma legião de fãs, e o trabalho de Quino ainda tem reconhecimento internacional, como um dos maiores cartunistas do mundo. Quino criou vários personagens, mas a personagem mais famosa é Mafalda, uma menina de quase 8 anos que odeia sopa.

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