segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Et sic creatus erit


Um rio, talvez, por lá pela Lua, onde os homens irão construir novos povoados, a começar, singelamente – ou talvez não - por aldeias de roupa branca para curtirem em limpeza … de costumes. Já não vou assistir. Mas ouçamos a Beatriz Costa, para curtir por cá, neste clima sombrio de Covid-19, que transformou estranhamente a nossa Terra, mas onde, de vez em quando, se detecta que os cientistas continuam a desenvolver ciência, de efeitos extraordinários e imprevisíveis, quem sabe?

Boa e serena Lua que os homens vão devassar…

Ai rio não te queixes,  Ai o sabão não mata,  Ai até lava os peixes,  Ai põe-nos cor de prata.
Roupa no monte a corar,  Vê lá bem, tão branca e leve,  Dá ideia a quem olhar,  Vê lá bem que caiu Neve.

Água fria da ribeira,  Água fria que o sol aqueceu,  Ver a aldeia, traz à ideia,  Roupa branca que a gente estendeu.

Três corpetes, um avental,  Sete fronhas, um lençol,  Três camisas do enxoval,  Que a freguesa deu ao rol…. (“Aldeia da Roupa Branca”, por Beatriz Costa)

EXPLORAÇÃO ESPACIAL

NASA confirma existência de água nas regiões polares da Lua e abre novas potencialidades para a exploração do espaço /premium

Há 40 mil metros quadrados de Lua que podem contar água. Está concentrada nas regiões polares. Confirmação pode vir a facilitar os planos para as estadias na Lua e a levar avante as viagens a Marte.

MARTA LEITE FERREIRA

OBSERVADOR, 26 out 2020

É uma notícia que pode revolucionar o futuro da exploração espacial: está confirmada de forma “inequívoca” a existência de água na superfície da Lua e em maiores quantidades do que se julgava, anunciou a NASA em conferência de imprensa. As moléculas de água foram detectadas nas regiões polares do satélite natural da Terra através do SOFIA, um Boeing 747 adaptado com um telescópio que rastreia o espaço no espectro infravermelho.

A existência de água na Lua é uma desconfiança antiga: outras investigações já tinham detectado sinais de hidratação na superfície lunar, sobretudo na bacia do Pólo Sul—Aitken, precisamente onde a NASA tenciona montar uma base lunar no âmbito do programa Artemis. No entanto, essas descrições baseavam-se em assinaturas espectrais — a radiação reflectida por um objecto em função do comprimento de onda — na ordem dos três micrómetros, o que não permite distinguir entre água (H2O) e outros hidroxilos (OH), moléculas compostas por um átomo de oxigénio e apenas um átomo de hidrogénio.

A confirmação chegou esta segunda-feira em dois artigos científicos publicados na revista Nature Astronomy. Num deles, uma equipa de cientistas interpretou os dados recolhidos pelo SOFIA, que observou a Lua num comprimento de onda na ordem dos seis micrómetros, e descobriu assinaturas espectrais únicas das moléculas de água.

De acordo com o relatório, a água estará em regiões de alta latitude numa abundância muito modesta, entre 100 e 400 partes por milhão, provavelmente armazenada nos espaços entre os grãos na superfície lunar, que a protegem do ambiente hostil. Noutro estudo, os investigadores referem que há 40 mil metros quadrados de área lunar capaz de reter água, a maior parte em latitudes superiores a 80º.

Neste último relatório, os autores examinaram a distribuição de áreas permanentemente sombreadas, também conhecidas como “armadilhas frias” — regiões tão frias que o vapor de água em contacto com a superfície permanece estável por longos períodos de tempo. Após estudarem os dados do Lunar Reconnaissance Orbiter, um orbitador norte-americano que estuda a Lua, descobriram que há pequenas armadilhas frias (com um centímetro) em ambos os pólos lunares (mas 60% estão no sul) e que são milhares de vezes mais comuns que as armadilhas frias de maior dimensão (com até um quilómetro).

Água na Lua: o que é novo e porque é que importa?

A confirmação de água na Lua é entusiasmante para os exploradores espaciais por dois motivos principais: permite aos astronautas numa base lunar ter acesso a ela sem necessidade de transportar a partir da Terra (o que permite poupar 20 mil dólares por litro de água nas missões); e porque pode ser usada para produzir combustível. Mas já lá vamos.

Certo é que as quantidades de água reportadas esta segunda-feira nos estudos científicos não são suficientes para levar estes planos avante, alerta José Augusto Matos, astrónomo e sócio da Associação de Física da Universidade de Aveiro (FISUA). No entanto, os estudos confirmam definitivamente que “a Lua tem capacidade para reter gelo”. Quanto? É a pergunta que mais importa, mas que continua por responder.

A água mencionada nos dois artigos científicos está presente na superfície lunar e na atmosfera da Lua — uma atmosfera muito residual chamada exosfera. De acordo com os cientistas, essa água pode ter várias origens. Uma das teorias é que estas moléculas foram depositadas na Lua pelos micrometeoritos que atingem diariamente a superfície do nosso satélite natural.

Outra teoria sugere que o próprio impacto dos meteoritos pode conduzir a uma reacção química entre as moléculas de hidroxilo que, ao juntar com mais um átomo de hidrogénio, dá origem a moléculas de água. Uma terceira hipótese menciona que o vento solar também pode conduzir a este tipo de reações químicas. Num caso ou no outro, a água acaba por escapar para a atmosfera lunar.

Estas são as teorias que têm o suporte de melhor evidência científica. Mas há uma que, embora hipotética, é a que mais impacto teria para a exploração espacial: núcleos de gelo a muitos metros de profundidade que podem entrar em difusão até chegar à superfície.Ao longo dos 4,5 mil milhões de anos da Lua, sobretudo quando era mais jovem, ela foi bombardeada por asteróides e cometas que podem ter depositado grandes quantidades de gelo. Esse gelo pode estar enterrado na Lua”, explica José Augusto Matos.

A confirmar-se a presença desses depósitos maiores de gelo em profundidade na Lua, ela pode ser útil não só para consumo pelos astronautas, como também para ser como combustível, através de um sistema de electrólise que separa o oxigénio do hidrogénio, permitindo usar esses elementos em foguetões. No entanto, isto exige um “processo de extracção muito complicado” e que “nunca foi experimentado”: “Mesmo que se confirme este mecanismo, as missões dos anos 20 e dos 30 vão continuar a ter de levar estes produtos da Terra“, conclui José Augusto Matos.

Confirmação da NASA “justifica interesse em visitar” a Lua

Jonti Horner, vice-reitor e bolseiro de investigação na Universidade do Sul de Queensland  (Austrália), afirma que estas novidadesjustificam o interesse que muitos países têm em visitar e até em construir bases no pólo sul lunar”. Para o investigador, a confirmação de água na Lua “sem dúvida será uma grande vantagem para exploração lunar futura”.

É importante notar que o programa Artemis dos Estados Unidos, que visa regressar à Lua até 2024, inclui um plano para uma base permanente no pólo sul da Lua. A suspeita de presença de água no pólo sul da Lua desempenhou um papel importante na sua selecção como o melhor local para a Base de Acampamento Artemis”, sublinha Jonti Horner.

Aliás, a existência de água na Lua pode levar ainda mais longe a exploração espacial — até Marte: Pode até ser que haja futuras missões direccionadas às missões ao pólo sul da Lua para reabastecerem na base de acampamento, utilizando a água da Lua para reduzir directamente os custos de viagem de e para o nosso vizinhos mais próximo”.

Alan Gilmore, ex-superintendente no Observatório de Monte John, também realça a importância desta descoberta para o projeto Artemis: “O gelo será um recurso valioso para qualquer base humana de longa duração na Lua. Colocar essa base numa cratera sombreada perto de um polo vai protegê-la das flutuações extremas de temperatura entre o dia e a noite lunares. Também forneceria alguma protecção contra os raios cósmicos solares, partículas de alta energia irradiadas pelo sol”.

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